Esmola

Tudo aconteceu no dia da grande chuva. Não pingava uma só gota há quatro ou cinco meses. E quando ela chegou foi louvada com honras e sorrisos. Os dois estavam protegendo-se do temporal. Quando ele ameaçou, ninguém acreditou em seu potencial visto que desacostumaram-se com o garoar. Lá pelas quatro da tarde o céu pretejou, às cinco as ondas de vento passaram a varrer a atmosfera, às seis sentiram-se os primeiros pingos e, quinze minutos depois, tudo era água. Que vinha do céu, que despejava dos toldos sobre as cabeças desprotegidas com uma força desproporcional e acumulada, que molhava os sapatos, formava poças e lagoas, corria como rio nos meio fios e sarjetas, subia dez ou quinze centímetros pelas paredes marcando de marrom a cal branca das muretas e borrando a maquiagem das atrizes. E, fugindo do medo de morrerem ensopados, como se disso fosse capaz alguém morrer, ou talvez apenas querendo proteger tudo que carregavam de material, roupas, cédulas de dinheiro, aparelhos de telefone, moedas metálicas, óculos escuros, sapatos de couro, bijuterias, ou quem sabe apenas executando suas premissas primordiais, primitivas, automáticas e mecânicas, escondiam-se do desconhecido que agora vinha em forma líquida, nossa morada mais antiga e, ainda assim, assustadora. Era a marquise de um cinema. E, junto com outras quatorze pessoas, resguardavam-se a seco.

– Ufa, até que enfim, água.

– Mas justo agora?

– (Eterna insatisfeita)

– (…)

– Deve passar. Acho que está perdendo forças.

–  Não sei, já se foram quinze minutos, talvez meia hora.

– Você vai praquele lado? Por que não toma um táxi?

– (Enxerido)

– (Mão de vaca)

– A noite tava tão boa.

– (Reclamona)

– Você também vai praquele lado?

– Não, senão pegava um táxi. Tenho de atravessar a rua e descer a escadaria. Pego um ônibus lá embaixo. Estou há uns doze quilômetros de casa.

– Por que tudo acontece quando a gente não tá preparada?

– Não é verdade. Olha quantas pessoas preparadas ali. São guarda-chuvas.

– É, deve ser comigo.

– Calma, já vai passar.

Um trovão soou e assustou os passantes, a luz anterior clareou de branco reluzente o rosto de todos e varreu de medo a cabeça de quem se iluminou. O som dos canos afugentava tanto quanto a água que caía direto do céu. Condensando a torrente em um jato forte e único que se derramava sobre um bolsão de lama cinza já formado, ouvia-se uma cachoeira urbana nada agradável aos ouvidos de quem não sabia ouvir e se encantar.

– Por que você tá chorando?

– Porque a vida sempre me prega estas.

– Calma, moça, é só chuva. Todos esperavam por ela.

– Eu queria somente chegar em casa.

– E vai!

– Mas tarde, e molhada.

– Mas você tem algum compromisso?

– Não.

– Então por que a pressa?

– Porque…

– Por que a pressa?

– Não sei.

– Calma, vai passar.

– …

– tá ouvindo? silenciando?

– …

Um carro vindo com a pressa daqueles que não sabem pra onde vão e, portanto, correm pra terem tempo de trocar de destino indefinidas vezes, passou pela rua defronte e causou uma onda belíssima e cheia de ira. O spray subiu quatro metros, magnânimo e plástico, projetando-se sobre todos e encharcando os pedestres com um líquido cinza e áspero, misto de asfalto, pedras, restos de calhas e água com enxofre.

– Filho da puta!

– (…)

– Por que você não pega um táxi?

– Por que você não vai pro caralho?

– (…)

– Desculpa, cara. Tô encharcada.

– Tranquilo.

– Você tava trabalhando?

– Não. Tava no show?

– Ah, eu também.  Curtiu?

– Sim, eu toco.

– Como assim?

– O baixista, era eu.

– Nossa! Puxa, eu adorei.

– Obrigado.

– Onde você disse que morava?

– Longe.

O farol dos carros produzia sobre o chão úmido uma série de luzes e reflexos que embelezava de amarelo os rostos de cada um. O aroma de ozônio empapava as narinas. O tilintar dos escorridos dos telhados começava a suavizar indicando a paz escampada que se aproximaria em breve. Ela sorriu de vergonha, nervosa e, como pedindo desculpas pela grosseria, elogiou o som mais uma vez.

– Vou seguir o seu conselho. Pegar um táxi.

– Descanse bem. Sorte.

Assim que ela se despediu com um aceno da janela ele caminhou até o papelão que estava no canto oposto da marquise. Pediu licença ao cão, abriu a caixa sobre a qual o cachorrinho dormia e se enrolou como um sanduíche naquela cobertura provisória e frágil. Trouxe o fiel amigo pra perto do abraço e guardou-o da garoa que já se apresentava no lugar da tormenta. Fechou os olhos e dormiu.

Rodada 112 – Invertida

Texto : Pedro Silva

Imagem: Walter Vinagre

Deixe um comentário