Moro em uma cidade grande. Uma metrópole, dizem. De minha janela no alto vejo
asfalto, concreto, carros, nuvens escuras e corvos, ouço o barulho de helicópteros e o
crocitar dos corvos, às vezes um suicida se atira de uma janela mais alta que a minha.
Minha vida não foi sempre assim. Nasci em um pequeno sítio, uma roça, nos
arredores de uma cidadezinha pequena onde nada nunca acontecia. Manhãs de
acordar bem cedo, ajudar minha mãe e depois correr por uma estradinha de terra até a
escola, um telheiro sem portas nem janelas. Meus irmãos, um a um desistiram da
escola; eu continuei, insisti, e estou aqui, enquanto eles ficaram na roça.
E lá ia eu, sozinho, pela estrada, repetindo para mim mesmo a lição do dia. Algumas
vezes, não era sempre, alguém ia comigo, ao meu lado, respirando forte, alguém que
eu não conseguia ver, só sentir o resfolegar que me fazia apressar meu passo. Umas
crianças apareciam, nuas, me beliscavam, puxavam meu cabelo, queriam interromper
minha caminhada, furtar meus cadernos, quebrar meus lápis. E eu, obstinado, na
estradazinha, passo firme e braço forte, no caminho do Saber – como recitava a
professora. Outras vezes, quando eu achava que ia fazer sozinho minha jornada,
aparecia uma velha que repetia ser minha avó, bisavó, a avó de minha avó ou algo
assim, e tagarelava sobre a vida de escrava na senzala, sobre os filhos, os netos, os
bisnetos e eu que era, assim ela repisava, o seu bisneto ou trineto tão querido. Eu
ouvia respeitosamente, mas tinha que tentar me manter à distância, evitar que ela
segurasse minha mão pois quando ela conseguia, apertava e não queria mais largar.
‘Vó, me deixa, vou chegar atrasado na escola” E ela, agarrando forte minha mão, “pra
quê escola?, fica aqui e te ensino tudo o que um netinho meu precisa saber”. Até que
ela se descuidava entre uma história e outra, uma receita de simpatia ou uma reza
contra feitiço, soltava um pouco minha mão e só aí eu podia correr a estrada toda até a
escola, só para a professora ralhar comigo de novo pelo atraso.
Um dia, resolvi que ia escutar tudo o que minha avó tinha para me dizer, mesmo que
com isso eu não fosse naquela manhã à escola, mesmo que eu tivesse que desistir de
estudar e me enterrar na roça como meus pais e meus irmãos. Da próxima vez que a
velha apareceu, fiz questão de entregar minha mão, as duas mãos, pedi “a bênção
minha avó”, beijei a mão dela, deixei ela prender forte minhas mãos nas dela e ouvi o
que ela tinha a dizer. Tudo o que ela tinha a me dizer. Não sei quanto tempo fiquei lá,
ajoelhado aos pés dela, ouvindo e ouvindo e ouvindo. Minhas mãos já roxas do aperto
das mãos trêmulas porém fortes, ainda vigorosas apesar dos anos ou séculos. A voz,
rouca, parecia vir de muito longe. Foram horas, dias, semanas? Não sei. Não fui para
a escola. Não voltei para casa. De carona em carona fui parar em uma praça em uma
cidade enorme, uma metrópole, uma megalópole. Em uma janela num pequeno
apartamento no alto de um prédio muito alto. Não sinto saudades, nunca voltei à
minha roça, não sei o que foi feito dos meus pais, dos meus irmãos. Vivo minha vida.
Digo sempre para mim mesmo que fiz a escolha certa, mas não tenho mais muita
certeza: nas noites de frio o meu coração congela.
Rodada: 111
Imagem: Walter Vinagre
Conto: Jozias Benedicto