[a travessia do deserto]*

Acorda. Dormira tão pouco que acordar quase beira a força de expressão, era um mero
continuar da noite, a rotina seguindo seu curso, agora em dia nascido há pouco. Quando se
está atormentado, a noite é quase um deserto a se atravessar. De repente, sua percepção de
mundo ruíra.

Noutra época, estaria inteiro. Levantaria da cama, três ou quatro ideias formuladas, a cartilha
de resolução de problemas editada, da epígrafe ao epílogo. Orgulhava-se de ter o controle, ou
ao menos a impressão de que a equação da vida parecia sempre sob domínio. Agora, toda
pretensa construção virará pó, soprado no vento. Vento de chuva, prenúncio de reviravolta.
Onde deixara o celular? Deveria ouvir o áudio uma vez mais? Seria possível imaginar novos
cenários, considerar outras perspectivas? Tolice: a médica parecia resoluta e convicta.

Sobretudo, calma, o que o desamparava ainda mais: como manter a calma diante do caos?
Quando não há nada a fazer, o que é mesmo que a gente faz?

Longe, bem longe, lembrava das noites plenas de saúde e samba. Cantarola uma canção. Como
de hábito, não se lembra da letra toda, mas uma passagem o ajuda a buscar a borda: se houver
tristeza, que seja bonita. De tristeza feia, o poeta não gosta. Pois.

[*] Esse texto foi inspirado no desenho a grafite intitulado “A ilusão da dor”, de Josenildo Medeiros.

Rodada 110
Imagem: Josenildo Medeiros
Texto: Robson Aguiar

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