As cicatrizes abrem

Tentam mudar a fachada do sobrado, mas não conseguem apagar as grades. Há saudade, dor e martírio. Passados os anos, as paredes ainda lagrimam e as janelas engradadas são as mesmas que feriram a pele de minha bisavó, sem jazigo; a pele do pai do criador de Capitu, a preta pele das gentes que não sabem ler, das gentes sem emprego. Gentes que suplicam na esquina lotada de conversíveis dirigidos por mãos de várias matizes, poucas ou raras pretas.

A calçada, a rua, o mar, a nau, a travessia está abarrotada de gentes, lá estamos e precisamos, ah precisamos, restaurar a parede e deixar a mentira fenecer.

Rodada 106

Fotografia: Magali Rios
Conto: Adriana Vieira Lomar

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