Enigma

Nem era tão tarde, mas a chuva vinha como uma parede compacta, como chumbo que se derretesse no calor do verão. Olho pela janela: guarda-chuvas, pessoas apressadas buscando proteção, o vento arrasta as folhas caídas das árvores. E ela chega, as pessoas se apressam mais, correm, guarda-chuvas entortam e são carregados pelo vento, os carros buzinam e eu tomo uma decisão. Fecho a janela, abro a porta, chamo o elevador. Levo comigo um guarda-chuva que sei inútil, proteção não contra a chuva e sim contra a curiosidade de porteiro e vizinhos. E estão atentos, “o senhor vai sair nesta chuva?”, balbucio qualquer coisa, uma consulta marcada há muito tempo, o porteiro pergunta se quero que chame um táxi, nem respondo e já saio para a chuva que me espera. Na esquina, antes de dobrar na direção do mar, jogo na lata de lixo o guarda-chuva e estes anos todos de planos e amores adiados. O vento assovia, minhas roupas ficam pesadas com a água, mas eu não tenho medo, sigo apressado, a cabeça baixa, evitando esbarrar nas pessoas que se apressam e que ainda acreditam em proteção. Sigo na direção do mar, as ondas cada vez maiores, a chuva e as ondas uma só massa escura, um horizonte de chumbo derretido. Não preciso correr, a areia molhada acolhe as marcas de meus passos, os sapatos larguei com os últimos vestígios de prudência e moderação. Penso ver uma esfinge branca, feita de fumaça, pairando sobre as águas – é na direção dela que vou, mergulho, nado até ela, posso acariciar sua pata de leoa enquanto falo, baixinho, com a minha voz de menino há muito perdida: “agora você pode me devorar”.

Rodada 105 Invertida

Conto: Jozias Benedicto
Fotografia: Fabio Giorgi

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