Sem vestes e em busca de nova roupagem logo após o amanhecer, doura-se como quem está a esperar o cenário mudar. Não demora, logo o céu enegrecerá e as estrelas apontarão. A cortina do ontem repaginará a estrada e os pedregulhos. Por ela passarão homens cruéis e enlouquecidos que adentrarão na grota. De lá os pássaros tentam anunciar o início da invernada para as sementes tornar a vesti-la. Aos poucos, no compasso doce da madrugada, o grande vestido de pregas verdes é cerzido: cada ponto, um novo corte de roupa e a cada folha, a maciez do liso ou do cacheado ninho a abrigar ternuras. Mais uma desinvernada e a nudez mais uma vez a ser deflorada, consumida, arfante e flagelada. Com os seios à mostra, em gozo profundo, ela se funde à terra e as vestes virão do céu, como quem lhe toma os sentidos e a abraça.
Rodada 104
Fotografia: Daiany de Souza
Texto: Adriana Vieira Lomar