Agulha

Certa manhã de sol seu coração escureceu.
Irmã não conhecida. Mana que sacode de longe e joga pra cima.
Por onde passa espalha força, gargalhadas e rima.
A dor que em seu peito costurava o fim do ciclo tão curto, doía em todas.
Ela, embora ferida, se enchia de sol para tentar entender aquele amor incondicional, interrompido.
Cada saída que olhava parecia árida entrada…
Não queria se sentir camelo no deserto, seu solo era muito fértil.
Ela precisava lembrar de respirar fundo as gotas de amor.
A boca secava para os olhos umedecerem aquela dor.
Sempre com sua metade, dividia com todos a parte que faltava e não acabara aqui.
Sua voz embargou por uns dias mas voltou.
Seu canto estava mudo ainda.
Sua boca sorria escondendo o que era preciso.
A despedida, para ela, não era como uma batalha de Arthur ou como um
versículo de Matheus!
Essa despedida teve outro tom, outra luz e sem véu.
Tinha gosto, desconhecido ao seu paladar mas ao primeiro olhar parecia pitanga.
Como signo, comprou a calça de pitangas!
Depois descobriu que era acerola que se espalhava pela grama verde e conseguiu imaginar as risadas do seu anjo.
Assim ela seguiu cada dia, cada lua, dobrando, cozinhando, guardando e enrolando a tristeza como bolo de rolo e do fundo da agulha, descalça, se conectava olhando o céu…

Rodada 103

Fotografia: Ângela Márcia
Conto: Bianca Bertino Pereira

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