Penso, logo, insisto

Naquela noite, sonhei que era pura consciência e me esvaziava. No sonho, estava tudo escuro. Sequer sei dizer se era escuro. Lembro de uma conversa de garoto, com um menino que tinha um olho cego. Perguntamos o que via com aquele olho, “A mesma coisa que meu cotovelo”, respondeu. Então, no sonho, eu “via“ o mesmo que um cotovelo. Menos ainda, pois não tinha corpo, não sentia nada com nenhum dos sentidos. Havia apenas pensamento. Nessas horas, falamos em escuro, em nada. Mas o nada é inconcebível, impensável. Pensar em nada já é pensar em algo, nem que seja na palavra nada, ergo, impossível pensar em nada, de fato. Eu existia apenas porque pensava e o objeto de meu pensamento era o próprio pensamento, pensava apenas que estava pensando. O mais cartesiano dos sonhos. Ao perceber que sonhava com pensar e que isso me levava ao fim desse próprio pensamento, e sequer haveria o silêncio, me vi diante de um dilema. Se o sonho prosseguisse, condenava-me à não existência. O contrário de uma iluminação, um apagamento absoluto. O oposto, a consciência de ser e, para isso, era preciso acordar.

Esforcei-me, abri os olhos. Comecei então a me apalpar, tateando a barriga; respirei fundo, o cheiro da chuva entrava pelas persianas; escancarei os olhos na penumbra, reconhecendo a silhueta familiar da escrivaninha, da estante, do armário; busquei os sons vindos da janela, uma coruja piou; umedeci os lábios com a língua, senti o contorno dos dentes, os lábios ressecados e um gosto salgado na beira da boca. Sinto, ergo, penso, ergo, existo. Insisto, não desisto.

Esforcei-me fisicamente para me recompor daquele sonho e poder dar continuidade ao sono, que ainda precisava me levar até o amanhecer. Dormir, um outro estado de consciência.

Rodada 96 Invertida

Conto: Daniel Estill
Fotografia: Marcia Magda Marcos

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