O beijo da aranha

Estou tentando ler um livro, meu pensamento está longe e uma coceira infernal começa a atrapalhar. Depois, um calombo se forma. Sinto um arrepio, como quem ganha de presente uma picada.

Certa de ter sido mordida por um mosquito, enxoto o invasor e me assusto com uma voz estridente:

– Saia dessa rede, larga de preguiça, corre para a escrita!

Devo estar louca, quem poderia falar desse jeito e atrapalhar minha lembrança do tacho ardido de sol, onde catava cajus com minhas mãos miúdas e tão ávidas pelo sumo?

Daí meu desespero quando vi a mandíbula a gesticular palavras de ordem: “- Já mandei, e a senhora não cumpriu. Levante da rede, sacuda o corpo e comece a escrever um conto!

Com os olhos esbugalhados e uma dor repentina no ventre, corro para o banheiro em ataque de disenteria.

Aliviada, me deparei com a mandíbula na porta do banheiro:

– Não adianta ficar nessa inércia enquanto o mundo inteiro sofre com o apocalipse. Quem avisa, amiga é. Minha chapa, o papel é sua chance de se salvar.

Assustada, temerosa de levar mais uma picada, sigo a ordem. A princípio sinto raiva de minha condescendência. Volto a lembrar dos cajus e das minhas mãos miúdas, dos abraços e dos beijos. Da fazenda, onde a distância da casa até o curral era longa e quase não se via gente. Era o verde, a levada e as vacas.

Diante de mim há um papel em branco e notícias de uma pandemia lidas no ontem. Os corpos são alojados em caminhões, os caixões lacrados, o pai, o filho ou a mãe choram sem a despedida e se mantem afastados.

O choro é contido porque as lágrimas podem contaminar o rosto. O papel começa a ser preenchido, quando bate a fome por brigadeiro.

Vou à cozinha quando me deparo com a figura de novo:

– Não coma muito, esqueceu que você não pode comer açúcar? Termine o conto, pro seu bem.

Dessa vez sinto um aconchego naquele pedaço de aranha.

Torno ao conto. Toneladas de corpos são incinerados, as metrópoles esvaziadas e esterilizadas por homens vestidos de astronautas. O céu manda chuva, que varre a rua de gotículas transmissoras. O inverno passa com poucos insumos, no mesmo instante em que a natureza se abastece de vida.

Os cajus voltam a se amontoar na caçarola, o sumo traz a lembrança do primeiro beijo sem medo. A primavera chega com seu ardor do encontro. Os abraços se reinventam e abraçam outros seres.

Finalizo o conto e volto à rede. A mandíbula da aranha me beija, cura a comichão.

Percebo a teia de aranha, os aranha céus, os pontos cegos e lembro de todas as belezas que o homem é capaz de criar: seja em ferro ou em aço, seja em madeira ou concreto. A escultura atravessa a casa, rompe a barreira da rua, vai até o parque.

E lá a aranha descansa até que possamos abraçá-la. Mais uma vez lembro da casa, dos cajus e do celeiro. E minhas mãos engelhadas se confundem com aquelas mãos miúdas e macias. Pego o caju sem o temor da contaminação e o sumo, e o agridoce, e a dormência, e a turgidez da minha boca e a pele macia do fruto e o amarelo vindo dos raios de sol saram aos poucos o que restou do planeta.

Rodada 94

Fotografia: Marcia Magda Marcos
Conto: Adriana Vieira Lomar

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