(Euos ouço)
– Ainda penso em guardá-lo. No mínimo como um símbolo da derrocada do antigo.
– Não sei se apenas como troféu. Eles ainda podem ser úteis pra alguma coisa.
– Eles quem?
– Eles não existem mais. Tudo o que temos é ele. Ele e pronto. O último. Não há como fabricarmos novos.
– Tem certeza? Eles desenvolveram uma espécie de religião chamada engenharia genética. Segundo livros que li a respeito, tudo o que mais queriam era conseguir reproduzir seus próprios corpos para nunca abandonarem o planeta.
– Se isso for verdade, pode ser que ele próprio saiba se multiplicar.
– Nem todo humano sabia os segredos da genética.
(Silêncio)
– Na verdade, a grande maioria deles levava vidas muito próximas da que esse daí leva agora: em busca do básico para não morrer.
– Os relatórios arqueológicos não reportam que eles tenham sofrido com isso. De fato, pode ser que ele esteja, inclusive, bastante satisfeito com sua situação presente.
– Não é verdade. Há relatos, sim; não do sofrimento, mas de como o suportavam. Li que eles inventaram uma coisa chamada entretenimento. Não sei exatamente como funciona, mas os livros que os arqueólogos encontraram diziam ser algo que aliviava dores e outros sintomas. Eles tinham dores; o entretenimento dava o alívio.
– Não sei qual relatório o senhor leu, mas em toda a literatura com que tive contato o entretenimento aparece como uma droga letal. Alguns estudiosos inclusive dizem que foi a causa do desaparecimento.
– Tudo o que a nossa sociedade não precisa é de mais uma droga.
– Bom, senhores, tudo leva a crer, então, que tenhamos descoberto o último membro de uma espécie absolutamente inútil. De modo que…
– Não nos precipitemos. Concordo que ele parece inútil, mas vamos refletir mais numa noite e amanhã decidimos o destino do último exemplar da espécie humana.
(Não os ouço mais)
Rodada 34
Imagem: Marcelo Damm
Texto: Saulo Aride
Muito bom, Saulo! Adorei e me fez lembrar, sabe-se lá por quais nexos (mas talvez sabendo) do que o Jonathan Franzen falou na mesa dele na Flip, em que questiona a ideia de liberdade que é vendida para nós – exemplares ainda múltiplos da espécie humana -, a ideia de que liberdade é ter vários tipos de maçanetas para escolher, vários tipos de portas para colocar nas nossas casas e, estendendo o assunto, talvez várias opções de filmes para escolhermos no cinema de quinta à noite, quem sabe. A imagem interessante e expressiva de Damm ganhou desdobramentos impensáveis com esse texto!
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Saulo… sempre o Saulo… Sensacional! Obrigado, meu bom!
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sim, Vivian, o Franzen falou isso, ou foi no texto q ele leu. a liberdade no capitalismo é um pouco por aí: vc pode escolher seu celular entre a oi, a claro, a tim ou a vivo, olha q beleza! mas como no sinistro texto do saulo e na não menos sinistra imagem do damm, é preciso admitir q o destino do ser humano é sua inutilidade mesmo, chave de sua verdadeira liberdade. ou como diria oscar wilde: toda arte é completamente inútil…
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Acho que na preocupação excessiva por enxergar apenas o lado utilitário das coisas vamos descobrir cada vez mais nossa (saudável) inutilidade, que numa ótica desse tipo acaba sendo algo doloroso… Valeu pela imagem, Damm!
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Adorei o Post, Parabéns!!!
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