Você é sádica!

Você é sádica. Descobri isso ontem. Veio tudo de uma só vez, como uma revelação divina. Tudo se encaixou perfeitamente. Todas as suas ações, palavras, histórias, estórias. Tudo! Um filme passou na minha cabeça. Todas as cenas se desenrolam para o final revelador: “Você é sádica!” Eu, pra te falar a verdade, já tinha esse pressentimento. Aquela minha intuição, quase infalível, que eu sempre te falava, lembra? Mas você disfarça tão bem. Esse seu ar meio de deusa. Você diz que as pessoas te endeusam, mas é você que se coloca no altar. Imagem construída propositalmente! Comigo não foi diferente! Nem com ninguém antes de mim e, possivelmente, nem depois de mim. Fui lembrando das suas pequenas e grandes perversidades, comigo e com os outros, da sua frieza, distância, total falta de cuidado. Até na forma como você goza tem dor. Alheia! Incontáveis foram as vezes que você, perto daqueles instantes de segundo em que o mundo parece parar pra ver a gente contrair e explodir, perguntava se me machucava. Eu, sem querer atrapalhar a possibilidade de mais um gozo seu (eu adora ver você gozar), balbuciava, quando era possível: “Não! Outras vezes, apenas mexia a cabeça, mas a expressão do meu rosto, com certeza, dizia o contrário e você explodia de prazer. Eu, de alívio! Pelo que me lembro, das revelações desumanas que você insistia em fazer, você precisava causar dor a outros parceiros pra gozar, esse não era um privilégio ou demérito meu. Dor. Você precisa de dor. A mesma forma de entortar a boca um pouco pro lado, num sorriso um tanto sarcástico, se repetia em outras ocasiões também. Você tinha um enorme prazer de me relatar, com riquezas de detalhes situações ainda que reais, por humanidade, não se conta a nenhuma pessoa, minimamente, apaixonada. Que dirá pra alguém perdidamente apaixonada! Eu ouvia a tudo com atenção e, com a cara abobalhada, assistia aquele seu teatro, onde a personagem representava o seu papel mais aterrorizante. Até a profissão que você escolheu tem dor. Alheia! Você tem certeza de que as pessoas se libertam com a dor e você com a dor delas. Talvez, o que me conforte é saber que você sempre se comportou assim, com todas as pessoas com quem se relacionou. O importante é: depois, dessa revelação, que como depois de dias, meses ou até anos trabalhando em cima de milhares de peças de um quebra cabeças, chega-se à obra final, continuo a me perguntar como não percebi tudo isso antes. Seria quase impossível, apesar da minha intuição, que tentava aguçar o meu instinto de sobrevivência. Eu quase morri, caso você não saiba. Você, por diversas vezes, se mostrava arrependida diante desses atos perversos; admitia serem um desvio da sua personalidade. Você dizia buscar cura não era de hoje. Eu, apaixonada, acreditava. Não enxergava mais nada! Confiava que meu amor por você, que era enorme, salvaria a mim e a você. A mim, sei que não salvou. A você, suponho, hoje, ter enriquecido a sua coleção de almas feridas. Mais uma que você devastou! Ah, isso é fato: o seu sadismo me salvou de você! Sei que o pior ainda estava por vir. Ainda bem que não desejo mais estar ao seu lado. Assim, livrei-me também do meu masoquismo. Amém!

Rodada 34

Imagem: Fernanda Franco
Texto: Ericka Gavinho

20 comentários

  1. estreia ótima, forte e apaixonada de Ericka Gavinho. Precisa ter mais textos como esse aqui no clp: \”Até na forma como você goza tem dor\”. da imagem da fernanda não preciso nem falar, sempre forte e apaixonada…

    Curtir

  2. Caramba, belíssima estreia da Ericka! Adorei mesmo. Preger falou uma coisa certa: há tempos eu não lia um relato tão \”apaixonado\” por aqui. Quanto à Fernanda Franco, não preciso nem mais comentar: linda imagem, como sempre!Mas, então, Ericka, seja bem-vinda! Fiquei com uma ótima primiera impressão; tenho certeza de que você contribuirá para a diversidade e para o brilho do CLP. Beijos!

    Curtir

  3. Ericka faz do texto um bisturi. De maneira objetiva, precisa e contundente, disseca o sadismo-tema de uma relação apaixonada. Adorei, Ericka, escreva mais, mais e mais. Tadeu ou Tadzio no facebook

    Curtir

  4. Gostei. Mistura de sentimento com ressentimento e libertação da alma expressa em palavras simples, de fácil compreensão. Não sei se a história é real ou fictícia, mas não importa. Liberto é o leitor que pode viajar em linhas bem escritas que grudam a atenção, dando asas a imaginação. Excelente! Parabéns!

    Curtir

Deixar mensagem para Igor Cancelar resposta