O que há com as cariocas

– Carioca: aquele que é oriundo da capital do estado do Rio de Janeiro.
– Por que elas não me querem? Não consigo entender.
– Entender: verbo que denota compreensão.
– Se eu morasse em outro estado seria um Don Juan.
– Don Juan: comedor.
– Devo me mudar?
– Mudar: deslocar-se de um local para outro com ânimo definitivo ou de longa permanência.
– Não sei… O que acha?
– Achar: ter uma opinião sobre alguma coisa; encontrar algo.
– Penso que sim, mas…
– Mas: conjunção adversativa.
– Mas e o meu emprego?
– Emprego: venda da força de trabalho em troca de uma remuneração.
– Peço transferência?
– Transferência: mudança.
– É, acho que é isso que eu devo fazer.
– Fazer: tomar determinada atitude, realizar certa ação.
– Essa sua definição está errada.
– Errado: aquilo que não é correto; o que discrepa da realidade.
– Se “fazer” fosse tomar determinada atitude, realizar certa ação, como as pessoas responderiam à pergunta “o que você está fazendo?” com “não estou fazendo nada”? Ora, claro que o nada também é um fazer, se não as pessoas responderiam “não faço”. Então, “fazer” não é, necessariamente, tomar determinada atitude, realizar certa ação. Pelo contrário, pode ser a ausência delas.
– Delas: “de” mais “elas”. O que pertence a elas.
– Não concorda?
– Concordar: estar de acordo; consentir.
– Portanto, você terá que encontrar outra definição para o verbo “fazer”.
– Fazer: tudo.
– Faz sentido, afinal, se aquele que nada faz na verdade está fazendo, isso significa que o nada pode ser definido como um fazer, portanto o fazer é tudo, se dele nem o nada escapa. O que está morto, logo mergulhado no nada, então está fazendo, não faz sentido?
– Sentido: direção; que tem lógica; posição militar de rigor.
– Caramba, todos fazem! Até uma pedra faz, afinal, a pedra é como um morto e está no nada, logo nada é o que ela faz, então ela está, de uma certa forma, fazendo, afinal, posso dizer, “a pedra faz nada”. Esse é o seu fazer, o nada.
– Nada: completa ausência.
– Rapaz, o nada não existe, pois até nessa suposta completa ausência há o fazer, logo não existe completa ausência, de forma que não existe o nada.
– Nada: ausência de tudo, menos do fazer.
– Boa.
– Boa: o que é bom, no feminino.
– Mas se o fazer é tudo e o nada é a ausência de tudo, menos do fazer, na verdade o nada é tudo, de forma que são palavras sinônimas e se a vida é tudo e a morte é nada, elas são absolutamente idênticas.
– Idênticas: coisas absolutamente iguais.
– Essa sua mania de definir tudo está me irritando.
– Prefere que eu defina nada?

 

Rodada 30 Invertida

Texto: Renato Amado
Imagem: Diego Kern Lopes

3 comentários

  1. Excelente jogo de palavras, Renato. Heidegger e seus amiguinhos gastariam pelo menos mais umas 500 páginas nessa definição, mas filosofia e lógica são muito mais divertidas quando expostas em prosa literária. :)Abraços,Igor

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