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O sonho era assim: eu começo mascando chiclete. Um chiclete delicioso, com sabor de tutti-frutti, daqueles que só havia na minha infância e que não existem na infância de hoje. Ele ocupa toda a minha boca, e seu sabor é forte. Com o tempo o sabor original se mistura a tudo que o ato de mastigar sem engolir drena de meu sistema digestivo, e o doce se torna ácido, azedo e gosmento. A essa altura a goma já havia crescido e ocupado tudo, grudado em meus dentes, em minha língua, no céu da minha boca. Já não é possível me livrar do chiclete com apenas um cuspe.

Levanto pra ir ao banheiro e separar a goma de minha boca. Não há caminhos até o banheiro: a simples vontade de ir até lá gera um corte de cena e me vejo debruçado na pia, mãos dentro da boca para desgrudar o chiclete. O banheiro é no estilo dos mini-lavatórios de avião, e a pia não solta água direito, e a descarga é só uma sucção sem alma, e tudo é sem alma, aço escovado, papel descartável, sabonete em que a gente não coloca a mão.

O chiclete demora a sair da boca. Quanto mais eu puxo, mais parece que sou eu me despedaçando ali. Já não há mais a cor falsa da goma tutti-frutti. Agora há o rosa da carne saindo em minhas mãos, descendo pelo ralo ínfimo daquela pia. A porta começa a balançar e mal consigo grunhir para avisar que o banheiro está ocupado.

Saio do lavatório ainda com a boca ocupada, sem conseguir me expressar. Um homem parecido comigo, mas grisalho e de suéter, me repreende. “Depois desse tempo todo, você ainda não conseguiu?” Abaixo a cabeça saio de perto do homem. Ao levantar a vista me deparo com um avião vazio. Poucas pessoas ocupam lugares esparsos. De vez em quando uma se levanta, se dirige para a porta e pula. Ninguém parece se incomodar.

Olho pela janela e vejo apenas o céu matinal, tanto aos lados quanto sob o avião. Pergunto à comissária se ainda é dia. “Ainda é dia, mas não é mais cedo”. Questiono a altura em que nos encontramos. Ela ri. “Altura? Acho que ainda nem saímos do chão”. Respondo com dificuldade, “E esse azul sob a gente? E esse céu?” “Céu? Eu só vejo chão”. E saiu de perto de mim para ir até a porta e pular.

Corta para um telefone que não para de tocar, ainda no avião. O barulho me incomoda, mas não consigo gritar, minha boca continua se fechando em si mesma, e já não há mais tutti-frutti ou azedume, há apenas uma massa sem forma. Ela já não me incomoda tanto, apenas nos momentos em que tento dizer algo. É só falar pouco, penso eu, e busco a fonte daquele barulho incômodo.

Há um orelhão dentro da aeronave; é dele que vem o toque de telefone. Estico o braço para atender, mas o piloto, pelo som da cabine, manda que todos os passageiros se sentem sem atender ao telefone. Insisto e atendo, e quem fala do outro lado é a mesma voz, dizendo para que me sente sem atender o telefone.

Penso em dizer que já atendi, mas evito o esforço e me sento ao lado de uma senhora idosa. Ela me diz que adora conversar, mas que está cansada e quer apenas ouvir uma canção. Faço sinal negativo com a cabeça; não consigo nem mesmo balbuciar a frase explicando os motivos de não poder mais cantar. Ela se irrita e diz que não canto porque não quero; se levanta, vai até a porta e pula.

Vou até a porta também. Olho para baixo e vejo o mesmo azul sem fim, sem norte, sem referência, sem profundidade. É azul que pode estar ali ou lá, ou mesmo nunca. Um homem para a meu lado e diz que é gostoso pular, mas que eu não deveria fazê-lo. Minha vontade é perguntar por que só eu não devo, ou se ninguém deve, ou o que há de gostoso no azul, ou por que não consigo falar. Em vez disso, olho para ele e aponto minha própria boca. “Você pôs na boca o chiclete, não? Então fique firme e continue no avião”.

Com muito esforço, pergunto apenas “Por quê?” Ele me responde: “Se você sair não há mais avião”, e me puxa para trás.

Caio de costas em minha própria cama, suado, com um filete de sol em meu rosto. Ainda é dia, mas não é mais cedo.

Rodada 17

Imagem: Ana Muniz
Texto: Saulo Aride

6 comentários

  1. o minimalismo sutil de ana muniz, o azul imenso e um pedacinho de avião gera o abismo onírico do saulo. suportar o próprio \”id\” não é mole não: é um fundo sem fundo. adorei o trecho: “Se você sair não há mais avião”. q bom, hein?

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