Posto 8

Não se olha o sol direto
ou queimará a retina;
mais prudente seria
ver sua luz sob cortina,
ou encará-lo ao seu pôr,
embora imensa a bola
de fogo, a claridade
se espraia por toda a orla,
e se dispersa em miríades
das mais sutis matizes
de cores esmaecidas
em tempos talvez felizes.
Na praia, a areia branca era
a promessa de queda livre
de escoriações e traumas,
como se isso fosse possível.
Os furinhos dos tatuís
que se escondiam do mundo
eram talvez pressentimento
de que o mar ficaria imundo;
na ainda clara água a onda vinha,
depois outra e então mais outra,
precisava-se mergulhar fundo
e emergir depressa pois louca
era a urgência pelo ar
e o pavor das correntezas,
mesmo se o desejo fosse
deixar-se levar sem certeza;
ou correr pelas barracas
para perder-se da família,
afinal um aprendizado
de como escapar de armadilhas
dos afetos que os pais enredam
em torno de todo filho.
Havia o mate, o picolé
e o biscoito de polvilho.
Havia o guarda-sol, a esteira,
a bóia e a piscininha.
Ouvia-se o papo dos adultos
sobre as tarefas comezinhas.
E o que dizer das pipas
trêmulas na liberdade
aparente, pois amarradas
seguramente ao barbante
lambuzado de cerol –
cortante como o real
seria olhar reto ao sol,
pois pode ferir a retina
ou rasgar o ócio e a rotina.

Rodada 14

Texto: Guilherme Preger
Imagem: Marcos Sêmola

3 comentários

  1. De propósito ao acaso me fizeste pararNa página pronta pra sentirDepois ler, deglutirNo início razão descortina-seContra-luz ou meia nada importaClaro está no encontro de lembrançasTão perto e distantes.Havia o sol lá no fundoSomos um e outro, todosPersonagens libertos da tramaNa clara água, onda vem e vaiCerteza cortante da vida.

    Curtir

Deixar mensagem para comprar seguidores instagram Cancelar resposta