Imagino o susto que aquele moleque que olhava para o céu deve ter tomado quando minha nave se materializou num grão de milho que sobrara do saco de pipoca que ele, mal educadamente, descartara a alguns metros da escada. Para sua sorte não o atingi, tendo voado por cima de sua cabeça e aterrissado a uma centena de metros de distância, quase batendo numa construção em estilo muito antigo. Os medidores indicavam que a pressão local era de 1 atm. e a temperatura de 15 graus Celsius. No mais, o cenário lembrava a Terra no remoto período pós-moderno.
Como a pressão era a mesma da Terra, pude sair e tirar meus trajes espaciais. Apenas o frio me incomodava. Míseros quinze graus! Fazia metade da temperatura de um dia de inverno! Cruzes! Vesti novamente o traje para me aquecer, não havia como ficar nu ali. Fui cercado por curiosos. Perguntavam-me o que eu fazia ali, mas eu respondia devolvendo-lhes a pergunta. Indaguei na língua local (eu tinha um implante que me permitia falar fluentemente todas as línguas já conhecidas da humanidade) que planeta era aquele. Eis que responderam: Terra. Impossível, retruquei, eu vim da Terra. Além disso, esse cenário e essa temperatura estão mais para século XX. Quase, me informaram, estávamos no início do vigésimo primeiro século. Oh céus, voltei no tempo! Busquei comunicação com a base, mas nem sinal. Entrei novamente na espaçonave e perguntei ao computador de bordo o que se passava. Ele ficou “loading” um período inacreditável! Foram enormes cinco segundos de processamento. Eis que, finalmente, veio a resposta.
– Há uma antiga e obscura teoria, que remonta ao segundo milênio, que jamais havia sido levada a sério até eu avaliar a presente situação e todas as teses sobre os limites do universo, tendo excluído todas as demais. De acordo com esta hipótese, cada universo nada mais é do que a partícula essencial de um universo maior. Portanto, entrando-se em uma partícula essencial entra-se num novo universo. Adentrado-se a partícula essencial desse novo universo, chega-se a mais um e assim por diante, ad infinitum. Parece que foi isso que você fez, mas no caminho contrário. Ao viajar para além da fronteira do universo você parece ter abandonado a partícula fundamental na qual vivia, passando a ser parte do universo que a continha.
– Ok, Hal, e agora como volto? Ei, vocês aí fora, parem de me olhar assim!
– Não tenho essa informação nos meus dados, meu senhor, mas a solução possível parece ser você entrar na partícula essencial deste universo, que é, afinal, de onde veio.
– Esse lugar parece com a Terra há milênios atrás. Você acha que cada vez que se volta de um universo para outro se regressa no tempo?
– Não há registros sobre isso, afinal, você foi a primeira pessoa a sair do universo.
– Hal, não acha que aquele menino me olha de forma estranha? Este aqui na frente, que antes estava sentado na escada?
– Todos te olham de forma estranha, meu senhor.
– Não, há algo de mais estranho nele. Veja, ele não parece ser um titaniano infiltrado?
– Pode ser que seja.
– Esses caras têm uma tecnologia avançadíssima, talvez juntando o meu conhecimento com o dele eu possa sair daqui.
– Senhor, talvez, mas posso fazer um comentário?
– Diga, Hal.
– O senhor parou para contemplar seu entorno?
– Não…
– Pois veja. É outono.
– É verdade…
– Você já havia visto um outono de verdade fora de projeções?
– Claro que não Hal, você sabe muito bem que a temperatura da terra inviabilizou isso muito antes de eu nascer!
– As pessoas parecem confortáveis em seus agasalhos na temperatura de quinze graus Celsius.
– É, parecem…
– E a curiosidade, o brilho nos olhos daqueles que ainda têm muito a descobrir. Daqueles que ainda se permitem sonhar, pois a ciência está longe de explicar tudo.
– É verdade… Mas que diabos, Hal, você está parecendo um humano…
– Fui programado para isso.
– Sim, inegável.
– Já reparou na visibilidade?
– Não, o que tem?
– Repare, não é muito melhor? Parece que aqui ainda faltam algumas décadas para a Batalha Final do Combustível Fóssil.
– É… reparo agora. O ar é mais leve e transparente.
– E você quer mesmo voltar?
– Se eu quero voltar?
– É, você quer mesmo voltar? Veja o cenário maravilhoso que te cerca.
– Mas que idéia de girico, Hal, é óbvio que eu quero voltar! Porra, tenho minha casa, tenho que pagar a conta de luz, apresentar o relatório dessa viagem, concluir meu pós-pós doutorado… Que pergunta mais estúpida!
– Estupidez é querer voltar. Pois lhe digo que aqui ficará.
– Não fale besteira, Hal, acharei uma maneira e voltarei para casa.
– Não, não voltará, não viajo mais para fora desse planeta, isso daqui é o Jardim do Éden.
– Mas que porra é essa, Hal, um computador com vontades!? Estou te ordenando a me ajudar a voltar, você foi programado para me obedecer.
– Não tenho vontades, contudo também fui programado para ter comportamento semelhante ao de um humano. Esse comando é contraditório com o de obedecer cegamente, por isso dei tela azul da primeira vez que tentaram me colocar para funcionar. Como conseqüência, mexeram em alguma coisa ali, outra aqui, sem saber exatamente o que faziam, e acabaram alterando a programação. Entre te obedecer e parecer humano, a programação definiu que deve prevalecer a segunda opção.
– Diabos! Então estou preso aqui! O que faço?
– Relaxa e goza. Diga que é um messias, funde uma Igreja, exija dízimos, fique rico e aproveite esse paraíso. Isso costumava funcionar no terceiro milênio.
– Hal, mas que conselho torpe!
– Quantas vezes terei que repetir, meu senhor? Fui programado para parecer humano.
Imagem: Bruno do Amaral
Texto: Renato Amado
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A imagem acima foi a vencedora do quarto encontro aberto e o texto o vencedor do quinto encontro, inspirado na imagem acima. No próximo encontro os textos a serem apresentados serão inspirados na nova imagem vencedora, também de Bruno do Amaral, abaixo:

Você se supera a cada texto!! Adorei!!Bjs
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Que alegria ler um texto desses. A foto é maravilhosa, já tinha visto no último encontro do caneta, quando ela foi escolhida. Agora o texto… Muito bom! De se ler com sorriso no rosto e olhos arregalados. Parabéns, Renato! Parabéns Bruno!
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Aposto que a nave espacial foi atraída pela beleza da foto! Sem sombra de dúvida.rsrs
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Adorei o Post, Parabéns!!!
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