Eram três.
Dois eram homens, a outra era mulher. Não eram exatamente amigos, mas se conheciam. Eram cultos e trabalhavam juntos no departamento de lingüística de uma universidade renomada na cidade.
Um deles havia dito que tinha algo pra comemorar. Os outros não perguntaram o que era. Fazia calor e os três tomavam chopes após o dia de trabalho, em torno de uma mesa redonda e desgastada – em cima, os restos da comida já comida. Seguiam em um papo entusiasmado sobre tabus e religião.
HOMEM 1: O segundo pecado capital é a inveja.
MULHER: Não é, não, o segundo é a luxúria, a inveja é o quinto.
HOMEM 2: Não, não, ele está certo, é o segundo. Você é árabe, não sabe nada de cristianismo.
MULHER: Sei que o cristianismo relaciona a inveja com Leviatã, o monstro-crocodilo que assombrava os navegantes europeus.
HOMEM 1: A origem latina da palavra inveja é “invidere”, que significa “não ver”.
HOMEM 2: Ora, mas, justamente, a inveja está em ver o que o outro tem e desejá-lo para si!
MULHER: A inveja em psicologia é estudada como formação reativa, um mecanismo de defesa dos mais fracos em relação aos mais fortes.
HOMEM 2: Mas a inveja não nasceu com a psicologia. Ela remonta a tempos antigos.
MULHER: A inveja nasceu com o homem!
HOMEM 2: Ou com a mulher…
HOMEM 1: Mas foi acentuada com o capitalismo e com o conceito de darwinismo social.
HOMEM 2: Só os mais ricos e bem-sucedidos sobrevivem…
HOMEM 1: A última palavra dos Lusíadas é Inveja…
MULHER: Eu fico verde de inveja…
HOMEM 1: E inveja tem cor?!
HOMEM 2: Foi Otelo quem disse que era verde!
MULHER: Não foi Iago?
HOMEM 2: Agora não sei…
HOMEM 1: Já repararam que as pessoas invejam sempre a riqueza, mas nunca o trabalho que a faz surgir?
MULHER: Não sei. Geralmente são os bens que provêm do acaso que provocam inveja.
HOMEM 2: Isso foi Aristóteles quem disse.
(Todos pensam)
MULHER: Já a censura é o imposto da inveja sobre o mérito.
HOMEM 2: E a inveja é a primeira a descobrir todos os méritos!
Os três riem. Pedem mais uma rodada de chope. E uma lingüiça calabresa.
HOMEM 1: E só o mudo inveja o falador.
MULHER: Khalil Gibran!
HOMEM 2: O espírito condena tudo o que não inveja.
HOMEM 1: Paul Valéry!
MULHER: Mas por que o referencial do que devemos ter está sempre no outro e nunca dentro de nós?
(Todos pensam de novo)
HOMEM 2: Essa questão ainda está em aberto. Neo-platônicos, existencialistas, marxistas, positivistas, neo-evolucionistas e pós-estruturalistas não chegaram a nenhuma conclusão.
MULHER: A inveja também pode ser o mecanismo propulsor da motivação.
HOMEM 2: Mas, se analisarmos os fatos, ela nunca é…
Já estão todos bêbados. Alguém lembra o propósito do convescote.
HOMEM 2: A gente não tinha vindo comemorar alguma coisa?
HOMEM 1: Pois é. Diga-nos o que é.
MULHER: Passei no pós-doc. Vou tirar licença. Tô indo pra Itália mês que vem.
HOMEM 1 deixa cair um copo no chão. HOMEM 2 repentinamente engasga.
Rodada 10
Imagem: Marcos Sêmola
Texto: Maíra Fernandes de Melo
Um texto bom e engraçado. Uma foto curiosa e instigante.
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Maíra, obrigado pelo texto que recheou minha fotografia. Gostei de tudo. Parabéns!
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ótima combinação entre foto e txt. parabéns ao semola pelo \”instante decisivo\” da foto com a imagem sugestiva dos rapazes. imagem q a maíra soube combinar com inventividade. e q inveja estou tendo dela…
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Adorei o Post, Parabéns!!!
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