Entre quatro paredes

Lélio passou na padaria e pediu uma média e um pão na chapa. “O café com leite é

clarinho e o pão é sem amassar”, disse, como se precisasse, a atendente acostumada

a preparar o mesmo pedido todos os dias, sem faltar nenhum. Ou quase: aos

domingos Lélio gostava de ir à missa na Igreja Matriz e comungar em jejum. Tinha

orgulho de, desde o casamento, ter faltado apenas duas vezes: uma por conta do

nascimento do filho, e outra por conta de uma pneumonia que o derrubara por quase

uma semana.

Deixou a padaria, caminhou pela avenida e entrou na casa lotérica. Conferiu os

resultados, verificou o que havia acumulado e fez um jogo barato, desses que a

máquina preenche, basta marcar à caneta um quadradinho no volante de aposta. Mais

à frente passou no banco, foi à boca do caixa, retirou o extrato, verificou não haver

novidade nos lançamentos. Passou na banca, comprou um jornal desses de leitura

expressa – como se lhe faltasse tempo! -, comentou com o jornaleiro qualquer coisa

sobre o Botafogo não estar jogando nada e se despediu. Dali a pouco seria hora do

almoço e coisa que ele não suportava era se atrasar.

Ao contrário de seus três amigos – Osvaldo, Durval e Cirilo, todos mortos fazia alguns

anos -, Lélio é quem ficara viúvo. Um câncer de pâncreas levara Irene tinha pouco

mais de seis meses. No velório, cuja lembrança ia cada vez mais apagada, pouca

gente. Dalva, empregada das antigas, uma colega de magistério da mulher, as viúvas

de seus amigos e Dalton, seu filho, com quem não trocava mais que meia dúzia de

palavras desde a adolescência. Além do pequeno grupo, apenas uma vizinha faladeira

que insistia em reclamar o absurdo de Irene não ser enterrada num modelo de mogno,

mais condizente com a família, comentário que Lélio não teve ímpeto de retrucar.

Quando o caixão de MDF começou baixar à terra, Lélio, que seguira quase calado

durante todo o velório, disparou a chorar, como se, de repente, percebesse a desgraça

de vida que lhe restaria. O pranto brotava tão sem controle que até mesmo as viúvas

de seus amigos vieram ao seu encontro, num aceno de solidariedade desmesurado

para quem o considerava apenas um velho digno de pena, a quem seus maridos

inexplicavelmente haviam devotado amizade.

E foi assim que Lélio de repente se tornou um homem brutalmente só. Embora ele e a

mulher não fossem de grandes conversas, faziam as refeições juntos, cochilavam após

o almoço, assistiam novelas, iam à feira. Faziam essas e outras coisas que os casais

fazem, mas que não chegam a ser caso de ficar contando por aí, afinal são mesmices

que não vão impressionar a ninguém e que não têm mesmo graça nenhuma. A vida

em seu estado bruto.

Rodada 112 – invertida

Conto: Robson Aguiar

Imagem: Patricia Cunegundes

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