A cidade onde nasci não existe mais. É claro que se pesquisarmos na Wikipedia, no
Google Maps ou se perguntarmos ao ChatGPT todos eles responderão que sim, ela
ainda está lá, no mesmo lugar, impávida, pujante, reluzente. Me trarão fotos e vídeos
e até as manchetes dos seus jornais de hoje, iguais aos jornais de hoje do mundo
inteiro. É claro que se eu comprar uma passagem de ônibus ou, melhor ainda, de
avião, eles vão me largar na rodoviária ou no aeroporto que o Waze me dirá serem os
mesmos da minha cidade – só que não são os mesmos, eu não os reconheço. Um Uber
me leva à casa onde nasci, há tantos e tantos anos, ou à casa onde passei minha
infância – o endereço é o mesmo, porém lá não existe mais nada, só feios edifícios ou
muros altos com cacos de vidro e cercas elétricas. Mas basta eu fechar os olhos em
um final de tarde como hoje, aqui, tão longe, um final de uma tarde quente quando o
vento que dá arrepios me avisa que vem um temporal, basta apenas fechar os olhos e
ela, a cidade onde nasci, está toda, todinha, inteira, cada rua, cada casa, cada árvore,
cada cão vadio, cada abraço de minha mãe, cada suspiro – ela, a minha cidade, está
inteirinha dentro de mim.
Rodada 112 – Invertida
Texto: Jozias Benedicto
Imagem: Anita Handfas