Na praia deserta do balneário, uma mulher admira o mar. Era um dia de semana e, em dias assim, todos sabem, as pessoas correm atrás de urgências. Quem, além dela, haveria de achar espaço para o encantamento, com tantos outros assuntos inadiáveis à espera? Indiferente, Patrícia divagava, os pés cravados na areia fofa.
Era mesmo estranho aquele horizonte inteiro, disponível, sem concorrentes, sem outras distrações, as horas avançando sem pressa. Não estava mais habituada a perceber a passagem do dia. Todas aquelas coisas, ainda que familiares, lhe pareciam de certa forma inéditas. Era talvez como voltar a enxergar depois de uma longa jornada imersa em escuridão. Estivesse sendo observada, perceberiam nela uma atmosfera de plenitude. Enfim, podia olhar para si e sentir afeição. Merecia, sim, aquele momento.
Pensamentos entrecortavam-se. Vinham, escapavam, retornavam e se conectavam, dando origem a novas possibilidades, a imaginação a correr leve, em intervalos fluidos, despida de controles, feito esses sonhos que, sabe-se lá de que jeito, juntam fatos de épocas tão diversas e fazem caber na mesma história. O mar seguia calmo. O vento, preguiçoso. A imensidão a hipnotizava.
A vida, essa sucessão de acontecimentos acelerados, finalmente estava com as rédeas puxadas. Era ciclo de recolhimento, de atentar para os silêncios, de perceber os ruídos naturais do mundo. Feito aquelas ondas que morriam na praia, a reproduzir o paradoxo da novidade.
Aos poucos iria reformular as ideias, perceber jeitos de prosseguir. Enfim, divisava chances de se tornar inteira. Haveria tempo. Tinha ele, enfim, por aliado.
Rodada: 111
Imagem: Magda Rebelo
Conto: Robson Aguiar