Tomei coragem aos 29 anos. A proximidade dos trinta abriu meus olhos. Me fez pensar no
que eu ainda não tinha feito na vida, mas queria fazer. Estava na hora de parar de ter medo do
ridículo, de parar de deixar traumas de infância domarem minhas decisões. Tinha certeza que
não seria boa, que passaria vergonha, mas e daí? Foi a primeira vez que pensei “mas e daí?!”
Era finalmente adulta.
Cheguei na sala sendo a única sem uma história com dança para contar, apesar de ser uma
turma de iniciante. Que menina nunca fez aula de dança, não é mesmo? Só uma gorda e
totalmente desequilibrada como eu. Querer testar quando criança eu até queria, mas o
falatório era tanto que quem era eu na fila do pão para ir contra todo mundo? “Você é muito
grande pra dançar harmonicamente”. “Precisa ser mais delicada para conseguir dançar”.
“Melhor você procurar esportes mais brutos combinam mais com sua personalidade.” “Uma
gorda como você dançando?” “Deixa de ser ridícula e deixa isso para as meninas leves e
suaves”. Eu nunca nem testei a dança para saber se era ruim. Eu sabia que era ruim. A
desequilibrada.
Quando entrei naquela sala só queria ter a chance de poder dizer que falhei.
O que não imaginava era que iria gostar e nem era a pior da turma. E isso ali dentro não
importava para a gente. Naquelas quatro paredes a dança contemporânea me dava liberdade,
o sangue em minhas veias corria como atletas da são silvestre, com vontade e alegria. Meus
pensamentos clareavam, meu corpo se mexia sozinho no fluxo da minha consciência.
Conseguia seguir os passos sem me sentir presa por eles. Pelo contrário, segui-los me dava a
liberdade de ser capaz. E isso era incrível.
Aos 29 anos descobri que podia celebrar meu desequilíbrio, que podia cair e levantar sem
vergonha, que podia ser bela e graciosa, que podia conviver com o bullying da infância sem
fugir dele.
Rodada 111
Fotografia: Magali Rios
Conto: Letícia Maia