O que não er(r)a

Muitas. As folhas invadiam meu sono e me dominavam até quando eu estava desperta. Dormindo, eram outonais e amareladas, caídas de árvores centenárias. Acordada, eram folhas e mais folhas de papéis anotados, blocos coloridos, versos de contas pagas ou não. Eu usava tudo que pudesse para escrever. Também não me importava com a qualidade do que escrevia. Apenas colocava a ideia em forma de tinta em qualquer coisa que se assemelhasse a uma folha em branco. Só não conspurcava o meu caderninho de sonhos. Nele, tentava ser a mais fiel possível.

Naquele dia, um bom humor me invadira. Afinal, eu havia sonhado com uma cruz larga: certeza de vitória. Ao longo do dia, tudo foi desmoronando. A reunião que dera errado, uma febre que me rondava e até uma briga com a minha irmã. Ao chegar em casa, exausta, não tinha entendido o porquê de tantos reveses. O caderninho nunca falhava! A contragosto, fiquei folheando suas páginas. E ele, objeto inanimado, me mostrou a força do que estava escrito. E nos detalhes, eu li. Estava descrito como se fosse uma fotografia. Minha memória tinha falhado e não o caderninho. Não estava escrito que era uma cruz. Era apenas sombra…

Rodada 110

Imagem: Patricia Cunegundes
Texto: Eliane França

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