Renascer

1
Naquela manhã, Renata se levantou da cama e esfregou os olhos que pareciam ter sido queimados, mas não sabia bem por quê. Tomou uma ducha fria, arrumou-se e passou na padaria, como sempre. Pediu um café, como sempre. Passou geléia no pão integral, como de vez em quando e sentiu náuseas como nunca. Foi passear no parque e o lago iluminado pelo sol de dezembro a atraiu. Era um ponto de luz que precisava alcançar. Fechou os olhos. Mergulhou e dançou naquele ambiente acolhedor. Não sabia ao certo quanto tempo se passou. Será que dormiu? Será que foi sonho? Quando saiu do lago, chorou muito, um choro alto, estridente, um pranto de quem sabe o que tem a enfrentar lá fora.

2
Os últimos dias não foram fáceis.. Nas muitas entrevistas agendadas, em busca de emprego, fora obrigada a responder as mesmas perguntas. Sim, sou solteira; não, não quero ter filhos; estudei muito; sim, falo idiomas. Não, não tenho experiência profissional porque… sempre a mesma estrada de volta ao passado…
Por que ninguém queria saber seus planos e desejos? Preocupavam-se com o que já foi enquanto o novo está prestes a ser vivido. Ficava calada encarando os entrevistadores. Será que nunca recomeçaram? Assim como os hojes, existem os ontens com vários timbres e sotaques. Só o amanhã ainda é silêncio.
Renata precisava seguir, mas a vida a empurrava ladeira abaixo para um passado tosco, contra o qual lutava desesperadamente para esquecer, todo santo dia. Toda maldita hora.

3
Era possuída por aquela sensação recorrente. Já não saberia nomear aquilo: devaneio, verdade ou delírio. A queda, precedida de gritos e respiração ofegante, dava-se num precipício escuro muito profundo. Ela caía, caía, mas nunca alcançava o ponto de chegada, o ponto final, não saberia bem como definir. Sentia o cheiro do sangue fresco. Todas as noites daquela vida infernal eram assim. Nos últimos dias, também não conseguia chegar ao final de nada. Sua agenda registrava as coisas que deixara de fazer. Seus sonhos embaralhavam-se com o torpor que o álcool lhe proporcionava. E o precipício era inevitável.

4
Acordar domingo era muito ruim, mas tomava banho, se arrumava e ia para a igreja. Uma via crucis que cumpria quase com prazer. Sabia rezar, mas esqueceu. Mirava todos os altares laterais e deixava-se ficar em frente à imagem da Pietá. Sempre chorava, mas tentava se recompor e seguir para o altar-mor. Então, levantava a cabeça e, dedo em riste, discutia muito com a imagem do homem crucificado, tentando trocar de lugar com ele. O padre já a conhecia e parecia não desistir dela. Até que, um dia, ficou zangado e, cheio de gestos e palavras de ternura, faz com que ela descesse do crucifixo. Que saco! Nunca mais voltou lá. O analista ia dizer que é um símbolo, uma associação, uma coisa qualquer que não definiria o que ela viveu. As beatas pensariam que era possessão e falta de educação. Ela só queria falar com Deus.

5
Saiu do parque e se embrenhou pelo centro da cidade. Tudo parecia estranho. Tanto incômodo precisava ter um resultado. Algo pulsava dentro de si. Precisava de chão, afetos, uma cama macia. Precisava jogar fora o lixo e recomeçar. Precisava, principalmente, separar o lixo do resto que ainda poderia servir de adubo e alimento. Tentaria ir para casa e mudar sua vida. Nem fazia ideia do que precisaria realizar. Largou os sonhos impossíveis e perambulou por avenidas e becos. Passou por um túnel estreito e, quando chegou do outro lado, jogou-se no chão como se tudo aquilo fosse um mundo desconhecido. Mexeu-se inquieta e sentiu algo quente em seu ventre. Sentou-se empertigada, coluna ereta e observou um cordão sangrento dependurado em seu umbigo. Era preciso tentar mais uma vez. Nova oportunidade se apresentava. Então, levantou-se e foi viver.

Rodada 110

Imagem: Ana Pose
Texto: Maria Emilia Algebaile

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