Mais uma vez ele chegou e viu-os esperando na janela. Não podia acreditar naqueles
sorrisos. A vida que viviam era um tanto miserável, faltava comida, faltava conforto, ainda
que não faltasse amor. E eles sorriam. Mesmo assim.
De sua parte, ele fazia de tudo para perpetuar aqueles momentos. Chegava cansado
após mais um dia de trabalho, com preocupações triviais e sem grandes perspectivas,
mas extraía tudo o que de melhor sobrava de si para dar àquelas crianças. Elas
precisavam sorrir. Continuar.
Já de longe ele começava com o nariz vermelho e as piruetas. Conforme chegava mais
perto, ele incluía caretas e vozes engraçadas. Tinha alguns personagens e a cada dia
enviava um diferente. Mas o gran finale era sempre um delicioso abraço das crianças que
corriam em sua direção. Apertado ficava o peito e quentinho o coração.
Enganava-se quem pensava que aquela atuação era apenas uma boa ação de alguém
privilegiado. Não sabiam que ele se fortalecia com as gargalhadas, a esperança, os
sonhos e o brilho no olhar daquelas crianças. Era uma necessidade também sua, e ele
continuaria a visitá-las, pelo tempo que, por ele, elas esperassem. Sorrindo.
Rodada 110
Fotografia: Marcia Magda Marcos
Conto: Rachel Jaccoud Amaro