O quarto estrelado

Com frequência as luzes daquele céu noturno invadiam as aberturas tortas das persianas do
seu quarto. Ela despertou com um som de estrelas, consciente de que era tudo um sonho.
Sempre evitou cortinas nas janelas. Preferia as persianas tortas, obstáculos frágeis e devassáveis. Com elas, transformava-se em testemunha das rotinas alheias, emolduradas nas janelas dos apartamentos da frente. Acordou com a sensação de fuga de um sonho invasivo e primeiro pensou em voltar a dormir e solucionar, no inconsciente, todos os temores que lhe afligiam. Depois decidiu levantar-se, levantar-se e mover-se e derrotar seus medos um a um, num movimento lento e estratégico, como quem quer prosseguir em frente com uma sensação peculiar, inédita. Estava sozinha e era de noite quando se encontrou com esse sentimento. Segundos antes, teve uma súbita sensação de perda de identidade, como se fosse possível esquecer tantas coisas que viveu. Olhou para o céu que, agora, invadia seu quarto, mais estrelado que o ordinário, iluminando as diversas sensações que ela própria compartilhava com o restante da humanidade. Já havia aprendido que seus medos eram mais comuns do que pensava, suas dúvidas eram tão triviais quanto lhe pareciam enigmáticas. Ela era, em si mesma, qualquer mulher em qualquer lugar. Era ninguém e todas, ao mesmo tempo.

Rodada 109

Imagem: Magda Rebello
Texto: Daniella Schossarek

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