Gaivota –

“Gaivota” foi a primeira palavra que me ocorreu dezoito meses depois. Isso me deixa
intrigado quando penso nesse renascimento. Raríssimas vezes devo ter escrito a palavra
“gaivota”. Sequer convivia com elas. No entanto sempre as desenhava. Meus desenhos de
infância tinham uma casa com chaminé (também algo que só conhecia dos meus próprios
rabiscos), uma árvore, um céu com nuvens e um casal de gaivotas voando em direção ao sol.
Se o papel fosse solto indiscriminadamente com aqueles traços em lápis preto, as gaivotas e o
telhado da casa seriam os primeiros indicativos da posição correta de céu e chão.

O lar por aquela época era formado por dois adultos, eu um deles, muitas plantas e
uma vitrola que preenchia a sala. Falávamos pouco quando estávamos simultaneamente no
mesmo cômodo. Em geral um vocabulário de acalanto e conforto porque, apesar de tudo,
nunca houve mágoa, muito antes uma tristeza compartilhada. Quando o sol não estava forte a
ponto de nos queimar, íamos de bermuda e camiseta caminhar na praia. Eventualmente até
ríamos. Eu odiava os grãos de areia e todo o movimento que envolvia retornar ao
apartamento. Lavar os pés, tirar a sujeira da roupa e, ainda assim, sentir os dedos dos pés
colando com a baba de água salgada. Por isso íamos pouco.

Seis anos atrás o último texto que me dedicaram tinha o seguinte conteúdo “O
paciente apresentou um quadro consistente com Traumatismo Cranioencefálico (TCE) de grau
grave, associado à perda de consciência aguda. É importante ressaltar que TCEs podem variar
em gravidade e requerem avaliação e monitoramento adequados. O prognóstico dependerá
da extensão e gravidade do TCE, assim como da resposta individual do paciente ao
tratamento.” E seguiu-se um hiato de vida. No jargão médico, dezoito meses em coma.
Mariana, a outra adulta do lar, mudara-se vinte e seis dias atrás e, desde então,
nunca mais pisara na mesma cidade que eu. No começo manteve-se o silêncio do
apartamento, o mesmo que entre nós já era um hábito. Depois um ruído de eletrodomésticos
funcionando em dias e horários conhecidos, formato pelo qual eu tentava, com a rotina, deixar
menos espaço para a existência do paradoxo entre culpa e alívio que aquela partida me trazia.
Por fim, uma solidão tão palpável que poderia encostá-la na parede com as mãos e a fazê-la
desfrutar comigo os discos do Belchior. Desde que Mariana se fora, a praia se tornara uma
desobrigação. Sempre aceitava caminhar para tentar (naquele ambiente de solo bege,
marulhar contínuo e óculos escuros) criar alguma proximidade que não me expusesse.

Certa noite, depois de um dilúvio digno de cobertura da imprensa, o bairro inteiro
ficou sem eletricidade. A chuva nos desperta medos ancestrais. Foi nosso inimigo primordial.
Junto com seus primos cruéis: o sol escaldante, o frio, a seca. Nas tempestades sinto que nos
unimos como espécie. Porque no fundo sabemos que a água que explode no chão cumpre
uma balística que um dia poderia liquidar a todos nós. Eu descia as escadas de emergência
para chegar ao térreo. Queria comprar velas no Bazar Camelo que funcionava sete dias por
semana. Foi quando algo explodiu na cobertura, houve um grande clarão e todos os
moradores saíram em disparada pelas escadas. Éramos oito apartamento por andar, eu estava
no quinto e tínhamos uma dezena para cima. Todas aquelas pessoas assustadas correndo em
manada, eu tropecei, caí, fui pisoteado e tive um extintor de incêndio golpeado em cheio na
minha cabeça.

Quando despertei tinha em minha cabeça a imagem de duas gaivotas magras
formadas apenas pelas curvas dos traços de grafite. “Gaivota” eu disse na cama. Embaixo das
gaivotas havia a chaminé, o telhado, a casa com janela de folhas de madeira que abrem para
fora, a árvore. Entre as gaivotas e as raízes da árvore havia um lar.

Rodada 109

Imagem: Regene Brito
Texto: Pedro Silva

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