[moto perpétuo]

“O carro chegou”, avisa a mensagem, protocolar. De repente, o mundo se tornara um grande protocolo. Mensagens, gestos e atitudes obedecendo a modelos. Pessoas, depois de tanto lutarem pela abolição de padrões, parecem uniformizadas, trajando os mesmos tons e cortes. Improvisos e espontaneidades chegam a causar estranheza.

Não é tempo para digressões. Preciso partir. Olho em volta e observo outra vez a rusticidade daquele lugar. Pequenos e poucos cômodos, mobília apenas básica, as paredes marcadas pelo tempo. Aos poucos, aprendera a lidar com a baixa luminosidade, conhecera cada um dos cantos da casa. Sabia, por exemplo, quais paredes eram especialmente ásperas, áridas, refratárias ao toque, quase reativas. Permanecera ali tempo suficiente.

“Estou aqui”, reforça o aviso. O motorista parece aflito. É preciso trabalhar-se muito, horas sem conta, para poder pagar as contas mínimas. Aluguel, internet, alguma alimentação, talvez a cerveja do sábado, sites de aposta. Sobreviver requer pressa: não há espaço para pausas ou esperas. Dali, daquela janela, de onde observo agora, costumava fitar o movimento do bairro, pouco antes de anoitecer, os pés nus sobrepostos, à espera de salvação. Ou de alguma novidade.

“Sigo aguardando”, insiste, como se eu não soubesse, a mala pronta, a mochila nas costas, algumas caixas e pacotes já dispostos sobre a calçada. Diz-se que quem viaja está sempre em fuga, ou em busca. Não consigo exatamente perceber o que me move. Estou de partida, é o que sei. Nas próximas horas, noutro bairro, noutra cidade, outras paredes, outros ângulos. Ainda que, ao final, seja tudo igual. E também inédito. Como cada segundo, cada minuto ou cada hora. A vida é sempre a mesma, e sempre inaugural. Um paradoxo permanente.

“Vamos?”, indaga. Nada é assim, tão cartesiano. Nem tão urgente. Dou um último gole no café, pronto havia horas. A xícara, suja, deixo sobre a pia, e sigo para a porta. Passo as chaves e, já na rua, sopram novos ares. Com sorte, a vida irá ganhar um certo viço, quem sabe até algumas alegrias distraídas. Haverá hostilidade, é claro. Mas sempre haverá beleza.

Rodada 109

Imagem: Angela Márcia
Texto: Robson Aguiar

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