O colecionador

Jovem, eu colecionava estradas. Caminhos, veredas, vielas noturnas ou largas
avenidas, trilhas sombrias, passagens luminosas, atalhos. Lobo solitário, permitia às
vezes me fazer acompanhar até a próxima bifurcação ou o próximo porto.
Colecionava alvoradas, cada nascer do sol era um novo dia sempre novo e sempre
diferente; nos crepúsculos eu estava a maior parte das vezes convenientemente
alterado e assim eles todos me pareciam o mesmo, como o eterno retorno a um lugar
que sempre nos espera. E a certeza de que após a noite escura ou com estrelas ou
fogos-fátuos, uma nova alvorada chegaria para mim e com ela uma nova companhia
para a outra etapa de um caminho que eu não tinha a menor ideia para onde me levava
– e isso, o final do caminho, o chegar, não importa, o importante era a estrada.

Revisto as gavetas de minha memória e estão todas lá: os percursos, os becos, os
abismos dos quais um cansado anjo de guarda sempre me salvava, os caminhos cheios
de alegria e felicidades – e as companhias em minha jornada sem fim. De alguns
momentos ficaram apenas uma imagem furtiva, um cheiro, um sorriso brilhante, um
“eu te amo” dito com maior ou menor convicção. Nomes, de pessoas ou de lugares,
muitos já esquecidos. Penso em revisitar lugares e pessoas, mas sei que já não existem
ou talvez nunca tenham existido como estão agora em minhas memórias. Um alguém
acaba por se tornar companhia constante e partilho minhas estradas, minhas
memórias. Um amor seguro. Caminhamos juntos.
Em um ponto do caminho, o cansaço: estou envelhecendo, talvez. Talvez me reste
pouco tempo da jornada, ainda mais com o fatigado anjo da guarda que também deve
ter envelhecido e perdido a agilidade que usava para me salvar no último momento.
Talvez seja hora de um pouso, um cais, um teto. Talvez a estrada esteja se estreitando,
indo para um muro ou para o nada. Talvez nem haja mais estrada. Talvez.
Mas há um céu azul à frente, eu sei, nós sabemos, e isso me faz continuar, nos faz
continuar, juntos, nós dois, os colecionadores de estradas.

Texto: Jozias Benedicto

Imagem: Walter Vinagre

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