Saudade

Saudade

Era Dezembro. Eu estava absorta até deparar os pés na beira do rio e lembrar os nossos
instantes de riso. Nós duas na Toyota Azul Royal a experimentar a eternidade dos dias
inexautos: você queria salvar o mundo e de saias me fazia acreditar na existência de heroínas.
Eu te seguia como uma fiel escudeira e de orgulho meu peito inflava. Naquele dia,
estacionamos em um terreno baldio, levávamos roupas, cadernos, comida e amor. A criançada
aos gritos chegaram acompanhadas de mães desvalidas. Ameaçavam rasgar nossas roupas –
ali, ninguém ia, somente a polícia e o rabecão para retirar os corpos matados. Víamos Urubus
em bando e sentíamos cheiro de carniça entremeado ao cheiro de jasmim que esperançava
aquele bairro baldio. Era o seu sonho de flor se fazendo crescer. Os anos partiram e agora
estou contemplando o rio. O frio atinge os meus pés no mesmo instante que o sol se
desmilingui. Ouço o sussurro do vento, ele me traz você. Enxugo a saudade, finco meu coração
escudeiro nos tons surrealistas do entardecer e desesqueço de rememorar os dias ao seu lado.
O sol se foi e na mata escura tateio as pétalas do seu amor.

Texto Adriana Vieira Lomar

Imagem Ana Pose

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