Grão Em Semente

Naquela noite ela chegou com a bolsa cheia…
De compras, de sonhos e cansaço. O chacoalhar das chaves trazia quatro olhinhos brilhantes que há horas esperavam o reencontro… a primeira imagem de fim do dia era sempre a melhor.

As rotinas, eram as mesmas: álcool nas compras, freio para os sonhos e aumento do cansaço com um certo alivio… Cansaço aliviado! Assim, usava menos seus pensamentos eletrizados. Pia cheia e fogão vazio… Ela trocava a capa de chuva pelo avental que não era sujo de ovo, os sapatos pelos chinelinhos de casa e aquele momento era o mais prazeroso, tinha ajuda da filha mais nova, a mais velha nasceu com duas mãos esquerdas para cozinha… baita ironia numa família que todos cresceram tendo a comida como sinônimo de amor…

Depois de umas duas horas entre cozinhar, conversar e beliscar, com as duas, finaliza o terceiro turno daquela mãe. As horas do dia foram todas proveitosas, agora é hora de voltar para dentro… Voltar para o texto iniciado há dias, ler as mensagens do celular, e-mails pessoais… e nesse momento, sentada em frente a tela do notebook, percebe que estava de avental, ainda. Volta e o retira. No meio do caminho, a bacia de pipoca doce… logo hoje que completara 20 dias sem açúcar! Para sua surpresa a bacia estava cheia de milho e meia dúzia de pipocas, comeu todas e começou a saborear o milho com farelinhos daquela calda endurecida de chocolate. Pronto! Dali ela foi para longe, voltou à sua infância pobre, lembrou das sementes de cacau que trouxe do sítio do Tio Luiz, em Paraty, guardou por dias pra fazer chocolate, que deu errado. Lembrou que uma vez escutou que pipoca no chão era o erê que queria brincar, mas ela não sabia nem rezar! De grão em grão foi ficando pequenininha, querendo ficar amuada na cadeira, mas sua mãe não estava mais ali que nem passarinha, era preciso mudar a lembrança… Da imersão no passado e lapsos do presente ela se volta para a bacia… E se vê lambendo os dedos depois de rolados pelos milhos adocicados… De súbito, a filha mais nova chega correndo e gritando: ”_ Mãaaaae! Amanhã tem o passeio! Você comprou o lanche?” E nesse momento ela pega a chave, troca os chinelos pelos sapatos, recoloca a capa de chuva e no elevador se olha no espelho, tira o lápis do cabelo, se ajeita, sorri e sai.

Rodada 108 Invertida

Conto: Bia Bertino
Fotografia: Magali Rios

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