Independência do Brasil ( quando a poeta deixa de poetar)

A caçamba roda
esmaga
tritura
cascas
sumos e restos

o caminhão testemunha
a avidez das mãos
a saciar a fome

o carro blindado passa
e testemunha
deseja retirar das suas orelhas direita e esquerda
a flâmula verde e amarela

a dona do carro as colocou
se diz patriota
e de cara para a cara da fome
ela ignora

sequer abre o vidro
e é feita de carne e osso
pois bem: o carro se engasga e
entre gemidos desabafa para o colega caminhão:
hoje é Dia da Independência do Brasil, meu chapa.

essa bandeira que a minha dona insiste em colocar nas minhas orelhas
não é de Deus
muito menos coisa de família
essa bandeira, carro-forte
é do povo.

a motorista sai enfurecida:
não posso chegar atrasada no comício
esse carro é tão novo e já está se engasgando

caraca, eu que sou um reles caminhão sei mais do que ela.
hoje, prezada, é Dia da Independência
e você confunde gente com bicho
e sequer abre o vidro do carro

o carro engasgou de vez
como quem chora
deixou a motorista etérea perdida
com medo de ser devorada naquela esquina

esquina com nome de Santa
só descer quatro quarteirões
e participar do comício e
finalmente esquecer

esquecer do carro engasgado
dos bichos exóticos
da cara da fome
e finalmente retirar do bolso uma flâmula verde e amarela
e gritar
Somos um país governado por Deus
Viva a Independência do Brasil!

Rodada 108 Invertida

Poema: Adriana Vieira Lomar
Fotografia: Roberto Abreu

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