Éramos oito na mesa obliqua lotada de alimentos vindos da terra e colhidos pelas mãos amorenadas da mulher que me contava histórias exóticas. Ela tinha cheiro de flor como o colo rechonchudo da minha mãe. Na rede ela me fazia dormir de forma rápida – no mesmo compasso do bicho de chifres que ela dizia com convicção própria das pessoas mais experientes o quanto que não gostava de crianças incrédulas. O tal bicho de chifres passava a galope e caso estivesse de olhos fechados sequer me amaldiçoaria.
Acordava com o sol tingindo meu rosto e tenho pra mim que isso ocorreu o verão inteiro. Minhas irmãs e irmãos ficavam em seus quartos escutando discos de rock enquanto eu exercia minha exclusividade de filha.
Mãe, dizia sem parar, vamos brincar de cozinhar. Dela vinha o não melado de ternuras – agora não posso, preciso descer e visitar a casa de Manoel Romana, ele anda adoentado.
Sem ter muito o que fazer, descia a ladeira e ia de mãos dadas com ela em busca de brincadeiras. Visitar casas, espiar pelas janelas, perceber o mobiliário ou a ausência de mobiliário, notar o piso ausente de brilho e cor, tomar água em copo de geleia com o colorido de pinceladas de tintas frescas, penetrar nos primeiros universos.
Antes de chegar na casa de Manoel, nos deparamos com pássaros e um, o Anil, parecia saber o caminho. No verão, o céu era despido de nuvens e a tarde parecia infindável. A distância da casa grande para o arruado era longa, ao menos para os meus pés chatos. A bota que usava forçava a pisada e me fazia sonhar em tirá-las. Nem ali eu podia tirar.
Na hora da janta, lá estávamos todos – os oito. Ninguém se escutava. Meus olhos buscavam histórias e depois que a mulher cheirosa de flor lavava toda a louça lá íamos para a rede a catar estrelas e novas histórias.
Depois da história do dia, dez passos até a sala. Sem luz elétrica, somente o candeeiro aceso no final do corredor. Antes de dormir, meio lá meio cá, não mais o cheiro de flor, o fogo das ventas, o homem de chifres.
O medo extremo e logo depois os braços, os braços dela, os braços melados de afeto. Menina impressionada, é só uma história.
Rodada 108 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Fotografia: Lucia Dias