Retornos

Há tempos não a via tão de perto. Uma proximidade suada, embalada pelo ritmo do samba de roda, uma proximidade de ímã que o atraiu para a frente do sorriso dela. Aquele sorriso que ele transformara em ricto de decepção anos atrás.

Ensaiara tantas vezes sentir novamente a festa de seus corpos se descobrindo. Fizera mil planos que ele sabia impossíveis de realizar e ela saiu voando num desses vôos que só cabe a quem está no rés do chão ficar admirando. O tempo, esse incompleto.

Sem se dar conta, foi caminhando e, quando deu por si, estavam frente a frente. Estancaram. Sorriram. Tinha tanto a falar mas não sabia se ela tinha a ouvir. Mesmo assim, falou. Falou o desimportante e ela respondeu descompromissadamente, talvez por educação.

Então, ele contou de seus desacertos, apresentou sua mais profunda emoção por acompanhar seu crescimento como profissional, como mulher. Sussurrou que não fora capaz de acompanhá-la, mas que teria sido muito bom. Pediu desculpas.

Ela sorriu segura de si e declarou que sim, tinha concluído projetos e feito novos planos. Contou de suas viagens, sua poesia, suas conquistas pessoais. Não tinha mais medo da solidão. Estava mergulhada na vida. Segredou que sentiu sua falta por muito tempo e ainda hoje, em determinadas situações, lembrava daquela época… A ladainha das coisas que não aconteceram, resumiu.

Mas o samba já estava no fim e precisariam sair dali. Ele se ofereceu para levá-la em casa. Ela recusou. Não era necessário. Iriam para lugares opostos, como sempre. Olharam-se num mergulho e se abraçaram. As mãos dele ainda eram fortes e ousadas. A pele dela ainda se arrepiava ao seu toque. Mera ilusão.

Caminharam até o estacionamento. Ela foi embora decidida. E ele ficou a se olhar na vidraça do carro tentando esquecer motivos.

Post Extra

Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro

Conto: Maria Emília Algebaile

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