Como um pássaro livre

Os dias corriam rapidamente, o relógio nem conseguia dar conta do passar do tempo, tinha trabalhado horas a fio e elas escorrem como água entre os dedos. Escolhi um vestido preto de noite, nele me sentia bem. O preto parece realçar na pele clara, me arrumei prestes a sair sem saber para onde. Queria dançar, após ficar escrevendo sobre meus antepassados precisava estar na rua, peguei um táxi e fui para Lapa. Cheguei num local que adorava, Rio Cenário, escolhi uma mesa e comecei a olhar as pessoas que ali estavam a curtir a música e a dançar. O garçom se aproximou e me perguntou o que desejava, não duvidei de uma caipirinha com a melhor cachaça do lugar e bastante açúcar. Não deixava de ser uma figura estranha e solitária. Não me perturbei senti uma estranha alegria com o risco de assumir meu desejo. De aqui a pouco chegou o moço com uma bebida deliciosa. Aos poucos a alegria foi me tomando, fui na pista e me entreguei à dança quando reparei alguém do meu lado me acompanhando.

– Acabo de chegar. Mas não sei dançar bem, apenas gosto. E você?

– Eu que?

– Sabe dançar?

– Não danço porque sei, tem dias que preciso me alegrar.
– Cheguei hoje…

– De onde?

– De Porto Alegre, nasci ali.

– E como veio ao Rio?

– Vim a trabalho e estou conhecendo, deste lugar tinham falado e me despertou curiosidade. Estou gostando é casual e sem compromisso, por exemplo agora estou dançando com você que nem conheço.

– Hoje estou dançando até meia-noite como a Cinderela sem príncipe azul.
– E porque com hora marcada?

– Amanhã trabalho e as ideias já estão na cabeça.

– Que acha de me levar no fim da tarde a conhecer a orla de Copacabana?

Aceitei marcar o encontro, continuamos divertidamente dançando sem mais falar, me despedi alegremente. Voltei à mesa, paguei a bebida e me encaminhei para a rua. Me perguntando sobre essa noite diferente, já quase madrugada, no Rio vazio e sozinha aguardando um táxi e do meu lado um cachorro tão só quanto eu. Só que minha vida não era de cachorro, tinha me divertido bastante, voltava para meu apartamento e tinha arranjado companhia para o dia seguinte. Me senti feliz, passei um dia iluminado e me sentindo bem com a vida. Rio proporciona às vezes aquelas belas ocasiões…

Rodada 107

Fotografia: Daiany de Souza
Conto: Silvia Gerschman

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