Os dois que se tornam um,
ou o um que se divide em dois?
Sobre esse ponto de bifurcação
A vida dirá depois
se era sem retorno
como a tarde que dividia
entre clareza e escuridão
a jornada de mais um dia.
Seria então irreversível
como o voo de flecha
partindo do arco ao alvo
para além do que se enxerga?
Ou como o rio em sua
desabalada queda à foz
atropela margens e rochas
e as destrói, atroz?
Mas os rios têm
jusantes e vazantes,
e assim também a vida
depois seguirá o antes
da passagem que bifurca
este aqui-e-agora
no desejo que hesita
entre a ida e a volta.
Se um em dois, ou dois em um
o que separa é o que junta,
o atravessar essa dança:
ir-não ir, resposta e pergunta.
Rodada 107
Fotografia: Magali Rios
Poema: Guilherme Preger