[ventos de Pessoa] (*)

foram semanas, meses, anos
de aridez

há quem diga que as boas mulheres e os homens bons
haviam perdido não somente a razão
mas também a conta daqueles dias vis

da margem, se avistavam
as pilhas de hostilidade
os destroços da civilização

acúmulos de cinza por toda a parte

ao mesmo tempo
há também quem saiba
que nada – nem mesmo o mal –
pode durar todo o tempo

e, de repente, sem aviso
soprou uma brisa tímida, ligeira
e, após ela, outra, e mais outra, e outras tantas mais
se juntaram e formaram uma corrente
de tal forma poderosa que não podia ser ignorada

sim, o vento voltara a correr

livre
fresco
natural
com a promessa de dias amenos

sentindo aquele vento passar
renascia a certeza
de que valia a pena.

(*) Poema inspirado em famoso verso de Fernando Pessoa.

Rodada 107

Fotografia – Gif: Pilar Domingo
Poema: Robson Aguiar

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