O lugar

A espera parecia-lhe feita de caminhos retos, sombras perfeitas, matematicamente calculadas para impressionar o transeunte mais atento. A espera parecia testemunhar os instantes até o momento considerado perfeito, qual seja, o momento do encontro. Se acaso ela se perdesse, deveria permanecer parada até alguém encontrá-la, dizia sua mãe quando era pequena. E assim, na espera, ela permanecia sempre que se perdia.

Naquele dia, perdida, esperava qualquer coisa que lhe instigasse a prosseguir. O motivo ela desprezaria em pouco tempo, já que os desejos mudam conforme o próprio movimento de rotação da Terra. Quanto a mim, a observo e me divirto, porque dali a pouco, quando anoitecer, tudo será sombra. E esquecimento.

Mas, no início daquele intrigante dia, o mundo parecia conformar-se em linhas geométricas. No momento perfeito – que não foi o do encontro – um pequeno círculo irrompia entre os quadrados e retângulos de sua espera incessante. Naquele pequeno círculo ela viu o céu, o sol, o yin, o yang, o passado e o futuro, o mundo, tão redondinho quanto a circunferência que admirava.
E daí se perguntou: Onde é o lugar que eu procuro? O que é esse lugar? E essa procura vira um esforço contínuo de memórias e perspectivas, desejos e possibilidades, tentativas e novidades. A busca é, ao contrário da espera, um caminho torto, um movimento intenso, de ângulos enigmáticos.

O seu lugar não era perceptível a partir das linhas retas que a espera lhe oferecia.
Percebendo isso, ela se levantou e partiu.

Rodada 107

Fotografia: Anita Handfas
Prosa Poética: Danielle Schlossarek

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