Filho da América

Ela não imaginava o que viria entre o início e o fim, tinha algumas certezas: se chamava Prazeres, nasceu no auge da primavera e cresceu escutando que a felicidade era como escutar passarada, mas para isso precisava regar o jardim. À medida que suas mãos cresciam, ela acreditava no mantra e regava e regava e regava e

Casou-se, viveu o sonho da propaganda da margarida Becel. Teve dois filhos e parecia convicta do quanto o mantra dera certo.

O amor a deixara cega, no seu jardim havia erva daninha, que desde cedo lhe negava abraços. Que desde cedo, preferia o breu do quarto à quentura do ninho. Desde cedo preferiu o arco, a flecha,

Em segredo, maquinava. E num dia de primavera, ele se fantasiou de arqueiro e lançou flechas no ventre da irmã, do pai e em todos que acreditava atrapalhar seu sonho de se tornar o mais querido da América.

Ela estava trabalhando quando foi avisada que seu filho fora preso. Prazeres voltou ao jardim e fugidia esqueceu-se de como lhe chamavam e tanto faz como tanto fez se tivesse nascido na primavera e tanto faz como tanto fez se tivesse parido o filho da América.

Rodada 107

Fotografia: Magda Rebello
Conto: Adriana Vieira Lomar

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