Yesterday, today and tomorrow

“— Ai! — respondeu Sancho Pança, chorando — não morra Vossa Mercê, senhor meu amo, mas tome o meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem mais, sem ninguém nos matar, nem darem cabo de nós outras mãos que não sejam as da melancolia”

Don Quixote, Capítulo LXXIV

Aproximava-se o 2º Ano do Tempo da Peste quando Ana sentou no banco vazio da praça que servia como refeitório em dias mais cálidos. Nevara à noite e o branco cobria assentos, asfalto e as raízes dos pinheiros. Fosse outro clima, ela veria perdida entre os arbustos o exemplar de manacá importado por ela mesma para aquelas terras geladas. Era uma lembrança tropical, mas se recheou de significado ao descobrir que os locais a chamavam de “yesterday, today and tomorrow plant”. Agora o manacá encontrava-se oculto pela aridez da estação. Com exceção dos pinheiros, pouco se via na flora. A vida tinha uma cor monótona e um som pálido. Na última primavera antes da Peste ela assistia aos buchinhos, lavandas, cerejeiras e acácias se alternando na paisagem, mas desde então desaprendera a apreciar.

Sentou-se ciente de que coloriria o piso de vermelho sob o atento olhar dos seres divinos, posto que nenhum humano a testemunharia no desistir final. Preparou lâmina, carta e coragem. Meditou por vinte minutos antes do ato. Foi quando apareceu o cachorro. Seguramente possuía um dono. Carregava um colar de identificação e uma placa gigante onde lia-se “Mutt”. Agachou-se sem pedir licença e defecou ali a setenta centímetros de onde Ana sentara. O choque térmico fez com que o bolo fecal exalasse vapor, revelando o frescor do ato. Por semanas Ana planejara o momento. O local era simbólico e ritualístico. Naquele banco ela ouvira a notícia do término e ali deveriam encontrá-la, jamais em outro lugar. Mas agora a certeza se chocava com a negação estética da cena. Seu sangue, seu corpo e uma porção de merda animal nada combinavam entre si. Seria a mácula da mácula.

Ana recolheu punhal, bilhete e disposição. Guardou no sobretudo e se permitiu um dia a mais de reflexão torcendo para que a neve recobrisse o quadro e que ela pudesse pintar exatamente como fantasiava durante as últimas noites. O rastro de sangue desceria com a gravidade e ela torcia para que chegasse até seu manacá, adubando-o à espera da primavera. Por ora, Mutt voltaria para casa, Ana voltaria para casa e o sol se poria a desprezar todos nós, como fizera mais ou menos nos últimos milênios.

Rodada 107

Fotografia: Graça Souza
Conto: Pedro Souza da Silva

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