Sei de onde veio, L. Planei próximo a esse terreno diversas vezes. É bonito, de longe, mas avistei monstros atrás das árvores, e encostados nos tijolos. Como uma moldura verde para um quadro carmim com magras pinceladas de preto metálico. Aqui, embaixo, a imagem é outra. L. está lá, ao centro, tal figura desconcertante. Com um olho, apreendo o mundo, com o outro, miro a pesca. L. é seu formato sentada na areia. Não vejo peixes. Atrás, o trânsito ruge indiferente ao tapete granuloso. O mar deita estático. Não há criaturas visíveis além de nós dois. Estou parado, entre a contemplação e a vigilância.
Venho neste local há muito. Geralmente sou deixado em meu pouso, o que aprecio. Por isso, retorno. Não estou cercado ou em movimento. É vivenciar um suspiro. Sem a explosão de ruídos e pressa, sem a necessidade de deslocamento. Sinto-me mais leve que no ar. Onde já se viu gaivota que não gosta de voar? Nunca aconteceu até você descobrir meu segredo, L. Você me encara como se o mundo cessasse. Percebo o que deseja na eternidade do olhar. Você quer voar, não quer? Estar em outro plano, acima do azedume sonoro… Se acha que encontrará paz no céu, está enganada. É somente um bater de asas mecânico. A maioria sequer pensa a respeito.
Talvez sejamos vítimas de uma desilusão com o mundano. O meu, azul abismo, o seu, química heterogênea. Sooa como uma piada cruel. Sou rabugento. Os mergulhos, combinados com a excitação da caça, são relaxantes. Eu não penso, só faço. Voar deveria ser assim para mim, no entanto, não é. Daí minha convicção de ser um gaivotão ao contrário. Enquanto para meus colegas, lá em cima é o começo, para mim é o fim. Olho para você, L., e vejo-os. Embora haja uma diferença grande. Um propósito. Há uma busca. Como se soubesse que pertence a uma espécie que não a sua, que lhe falta uma transição… uma transcendência? O fim nunca é, de fato, um vácuo. É uma recuperação da essência, em que a ascensão transcorre sem ignorar o prévio. Nunca cogitei nascer um gaivotão, ou o contrário. Aconteceu. Porém, L., deduzo por seu olhar que você sim. Por isso as lágrimas, o nariz escorrendo…? Ninguém mais te vê, exceto eu. Talvez ninguém tenha, como a mim… E, em breve, será nossa despedida.
Avisto com o outro olho uma bolha n’água. O instinto me chama, e me saciará por um período de horas. Precisarei voltar, mas espero nunca mais te ver. Não assim. Você, L., levanta-se também. Tomara que se transforme no que se vê. E seremos almas complementares.
Rodada 107
Fotografia: Lúcia Dias
Conto: Daniel Russell Ribas