A viagem

Anos planejando a viagem, economizando cada centavo do dinheiro já curto, sonhando lugares. “Europa”, assim, o nome do continente enchendo a boca mais do que se estivasse escandindo países ou cidades, França, Viena, Berlim, Londres, Itália… Eu-ro-pa, como um doce da infância que vai derretendo na língua, “como é mesmo o nome daquele suspiro colorido que não posso deixar de provar em Paris? Como é mesmo o nome daquela bebida amarga para uma happyhour em Veneza enquanto espero o príncipe encantado?” A patroa responde, feliz por lembrar de suas viagens de há tanto tempo; e fecha a cara, “três copos quebrados só esta semana, vou descontar de teu salário”, ela nem se importa, mixaria, quebra outro só pra fazer pirraça, a patroa desconta tudo, no fundo não é de todo má e acaba dando dinheiro a mais para ela comprar remédio inexistente para a mãe há muito falecida. Pergunta ao patrão como faz para tirar o passaporte e recebe de volta uma gargalhada: “vai viajar? Agora é assim, pobre também viaja de avião”. Engole em seco, humilhada, cospe na xícara que traz sorridente para aquele velho cheio de olhares que ainda agradece o café, “muito bom, só você pra fazer do jeito que eu gosto”, cheio de segundas intenções. Na encolha, tira o passaporte, acaricia aquele livrinho de capa azul como quem acaricia um namorado, não estes homens daqui e sim o príncipe que vou conhecer em Roma ou em Milão. A patroa gosta de ensinar a pronúncia certa dos lugares e de contar de quando era nova e viajava muito, “meu pai era embaixador”, repete sempre, deve ser mentira, filha de embaixador casada com um mondrongo feito este inútil e morando neste apartamento de fundos. No início tinha pensado em ir à Disney, mas a patroa foi enfática e sarcástica: “cafona, a Europa é muito melhor, o berço da civilização, e para quem gosta do Mickey tem até uma tal de Eurodisney”. Um mês talvez não dê para tudo, mas sempre tem chance de ficar por lá mesmo, quem sabe nem volto nunca mais? A mãe já morta há tanto tempo teve que fazer uma operação de emergência e a patroa adianta uns meses, chorando miséria, “só faço isso porque tenho bom coração e você é quase da família”. Antes de sair pergunta à patroa se ela empresta uma mala, pode ser velha mesmo, e segue pela rua com a mala vazia e gasta até o ponto do mototáxi e daí vai, pelas nuvens, até Veneza, onde o príncipe a aguarda, já com um aperol spritz gelado e uma aliança de ouro.

Rodada 107

Desenho: Johandson Rezende
Conto: Jozias Benedicto

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