As pontes parecem sempre tão sólidas que ninguém acreditaria as observando em pé que, ainda que fossem de ferro e cimento, poderiam acabar por cair como qualquer outra construção que o homem faça. Com essa sensação do que é profundamente sólido, saiu de casa… Com a ideia de que nesse dia não tinha vontade de tirar o carro da garagem e se dispor a dirigir até a universidade e depois ficar parada na sala de aula e permanecer lecionando duas horas sem descanso. Até por isso pegaria um meio de transporte e sentaria, olhando as pessoas que passavam, os carros, as cores, as vestimentas, ouvindo as conversas próximas.
Repentinamente o ônibus começou a diminuir a velocidade na medida em que se aproximavam à ponte, até o trânsito se deter completamente e permitir a vista do que acontecia. A ponte tinha quebrado em duas e caído com os ferros à vista, retorcidos, ficando totalmente inabilitada. As pessoas desciam dos veículos, se aproximavam da cena trágica da ponte quebrada, enquanto especulavam sobre como isso tinha acontecido. Os prejuízos foram grandes, um carro tinha deslizado pela fenda que tinha se aberto na ponte, ao tempo em que os veículos mudavam o trajeto e praticamente se fazia necessário iniciar um itinerário que os distanciava, ao ponto de ter que sair pela estrada para depois precisar entrar novamente a cidade, por um outro caminho que os levasse ao lado oposto.
Acabou sendo tudo tão inesperado que se sentiu estranha e fora de lugar. Acontecia também que estava sozinha. Fazia duas semanas que não via seu namorado que estava viajando a trabalho e não sabia exatamente quando voltaria. Além disso, tinha aparecido uma filtração na cozinha e estava vazando água na parede da pia e no dia anterior o bombeiro foi ver o que acontecia e lhe comunicou que tinha que quebrar a parede para resolver o problema. O vazamento não poderia ser mais inconveniente: sua irmã tinha programado férias na sua casa e isso acabaria com as férias tranquilas dela e dos passeios que iam fazer juntas. Ia ter que supervisionar o trabalho de reparo do cano da cozinha. Finalmente, após uma hora e meia conseguiram chegar na Universidade e a aula começou bastante atrasada. Como sempre fazia antes de entrar, foi tomar um café e iniciou o curso.
Mas no intervalo da aula recebeu uma ligação telefônica do namorado, contando que tinha voltado esse dia porque o trabalho finalizou antes do esperado, que não se preocupasse, que deu tudo certo que depois lhe contaria, e que queria convidá-la a jantar essa noite ao restaurante preferido deles. Reservaria para às nove da noite. Deu um pulo de alegria com as notícias boas e voltou a se sentir muito amada por Felipe surpreendê-la com a surpresa da chamada e pelo jantar juntos. O dia foi estranhamente agitado.
Rodada 106
Colagem: Pilar Domingo
Conto: Silvia Gerschman