Novamente era tempo de mudança. Ainda que soe irônico dizem que, das coisas da vida, a mudança é a única que permanece. Aos pouquinhos, sentia-se quase afeiçoada ao frisson típico da transformação, à sensação de não ter domínio, à impressão de que tudo é movediço e pode oscilar a qualquer instante.
Acabara de chegar. Pela velha janela de madeira, inteiramente aberta, apreciava as cores da mata, analisava as possibilidades do porvir. Sabia, desde sempre, que a planta que fenece é a mesma que frutifica. Palmeando as paredes daquele lugar, respirava a brisa fresca da coragem.
Decidira por algo pouco razoável à percepção comum, ainda mais para alguém que havia avançado casas no que chamam de carreira, no que muitos apenas enxergam sucesso e êxito. Um novo começo não era exatamente esperado àquela altura. Não para ela, que percebia os desencaixes e se angustiava.
Agora, distante dos adornos comuns da vaidade, se sentia disposta a prosseguir. Não sabia por onde. Na verdade, tinha raríssimas certezas. Talvez, antes que a noite caísse, fosse inteligente desfazer as malas e organizar as estantes. Talvez passar um café. Talvez caminhar descalça na terra úmida. Nessa ordem, ou em outra. Estava viva. Era tudo com o que podia contar. E era muito.
[*] Título extraído da canção ‘Aqui e Agora’, de Gilberto Gil.
Rodada 106
Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro
Conto: Robson Aguiar