– O mar vinha até aqui, pai?
A pergunta desconcerta um pouco o homem com um nó na garganta. – Sim, o mar vinha até aqui, minha filha. A gente chegou até aqui por ele.
As perguntas continuam: “Mas por que não tem mais mar até aqui?” “Como a gente chegou por ele?”.
O pai não responde mais. Olha o horizonte. Busca o mar. Agora, séculos e séculos o separam da filha. Ali, onde o tempo se condensa em espaço, ele sente a dor de seus ancestrais:
– Ainda ouço o barulho do mar; ainda sinto o gosto do sal e do sangue.
O sol ofusca a vista, faz calor. A criança corre e segura a mão do pai. Agora ela também ouve o barulho do mar.
Rodada 106
Fotografia: Ana Pose
Crônica: Patrícia Cunegundes