No fundo do poço tem uma mola

Aquela música não lhe saía da cabeça. Sobre a cabeça, os aviões. Mas não conseguia se lembrar da segunda frase e ficava cantarolando a melodia inicial. Sem conseguir continuar. Voltava sempre ao início. E como continuar? Essa era uma pergunta que também se repetia. Tinha vivido até ali com orgulho dos cabelos brancos. Não se sentia velha e até pouco tempo, não se sentia nem cansada. O que observava era um nervoso, uma ansiedade. Mas não estariam todos assim? Desde que aquele deputado elogiara um torturador em público e nada lhe acontecera? Nada lhe acontecera?! Quem dera que tivesse sido só isso. Sobre a cabeça os aviões… Sentou em frente ao computador e continuou organizando as fotos. Sempre tivera energia porque sempre tivera sonhos. Pelo menos, era o que achava. Mas essa convicção se confirmava porque se achava tão fraca, tão esquecida. Na verdade, sentia-se sem sonhos. Pra sonhar não se tem que ter, pelo menos, uma pontinha de esperança? No entanto, essa tinha saído pela janela e não voltara nunca mais. Sobre a cabeça os aviões… Sonho besta esse também. Nada de querer carro novo, casa de campo, casa de praia, joias. A vida toda, desde a adolescência, era só sonho louco de querer justiça social, querer que as pessoas não passassem fome, que as crianças tivessem escola. Piegas! Boba. Teria que ser muito tonta para continuar acreditando que uma mudança assim seria possível no mundo. Como era aquela frase? Incendiário antes dos trinta, bombeiro depois. Com ela, não. Ainda gostava de pentear os cabelos para ir levantar bandeira em manifestação. Com essa idade?! A irmã não incentivava nem um pouco. E ela não estava nem aí! Ou agora, estaria? Fechou mais um álbum, apagou mais fotos. Estava quase terminando. Tinha começado o dia organizando as fotos da ilha. A ilha onde nenhuma criança passava fome. A ilha onde todas as crianças iam à escola. A irmã dizia que não ela não tinha como saber se era verdade porque nunca tinha ido lá para ver. Então, foi. E fotografou tudo o que pôde. Sobre a cabeça os aviões… Depois que terminou de organizar tudo, voltou às fotos da ilha. Que crianças lindas! Demorava-se em cada uma, até que… nunca tinha reparado naqueles olhos verdes. Os olhos verdes da mulata… Lembrou-se, então, da música inteira. Cantou toda a melodia, lembrou o resto da letra. Desligou o computador, foi pentear os cabelos, quem sabe ainda teria energia para mais uma bandeira? Como era aquela outra frase? No fundo do poço tem uma mola… Ou seria outra música? Conseguia ver, apesar de tudo, uma pontinha de esperança? Verde como os olhos da mulata? Viva a Banda.

Rodada 106

Fotografia: Anita Handfas
Conto: Eliane França

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