Vamos lá, vamos lá. Subir a escada rolante pela contra-mão não pode ser considerado exatamente um feito, uma façanha. Nem um crime. Ou pode? O que sei é que é bem difícil de se fazer. Muitos tentam, mas poucos são os escolhidos. Principalmente se o lugar de chegada é um minúsculo ponto de luz no meio de enfurecida escuridão. Vamos lá. Se há uma chance, eu vou. Tento de cinco em cinco degraus, o joelho doi, a concentração escapa e volto ao ponto de partida. Eu e mais mil espermatozoides tentando alcançar o óvulo. Vamos lá. Sinto cheiro de graxa e metal frio. Sinto uma pena enorme de mim. Sinto muito. Vamos lá. Todo dia, toda hora, nesses trinta e três anos pregando no deserto preciso resistir e seguir se quiser alcançar a luz. Mariposa que sou, não me resta muita coisa a fazer. É a sina. É o que é. Vamos lá.
Rodada 106
Fotografia: Fabio Giorgi
Conto: Maria Emília Algebaile