Recreio

O barulhinho de doce de casca de laranja que vinha do refeitório, borbulhando no tacho, foi o que desencadeou as demais lembranças…

Ela era uma menina que jogava bola de gude, brincava de pique bandeira, ping-pong e amava carrinho de rolimã..

Das bonecas ela só queria a reconstrução: tirava a cabeça, os braços e as pernas para montar uma criatura dos pesadelos.

Adorava as histórias da avó: Curupira, Saci Pererê, o Velho do Saco, a Cuca…

O suspense alimentava sua imaginação entre as colheradas de doces.

No início do mês era o dia de passeio e presentes…

Sua avó se arrumava toda pra receber a aposentadoria e aquele dia era o dia mais esperado do mês…

Passavam no banco e ela ficava inquieta e ansiosa na fila. Só pensava no presente e no agrado de guloseimas que elas mais gostavam: a barra de doce-de-leite, do depósito da rua principal daquele bairro.

E as duas passavam na sapataria para pagar a prestação do carnê, dos sapatos que comprara (um para cada neto). E para comprar o chinelo novo, prometido no meio do mês. Mas a avó tinha seu preferido… Elas sempre tem.

Dali seguiam para uma pracinha, que em suas memórias, era encantada.

A pracinha da Sabóia Lima!

Subiam juntinhas uma rua looonga e no caminho, fechado de árvores altas, as enormes borboletas saiam dos troncos e vinham beijar a blusa florida da avó, que tinha pânico…

E elas riam, sorriam e gargalhavam fugindo das tantas borboletas.

Chegando ao final da caminhada, a recompensa: dinossauro, zebra, foca, hipopótamo, jacaré e baleia. Todos ali, esperando a chegada das duas…

Ladeada por um rio, nesta pracinha, os mosquitos também estavam à espera… E os peixinhos se escondiam entre as pedras…

Refrescavam-se com as calças dobradas, como quem pesca siri, e depois sentavam no banco do coreto. Era a hora que devoravam as barrinhas de doce-de-leite.

O limite era a sede… quando desse sede, iam embora…

Ali, naquela lembrança estimulada, ela sentia-se importante.

O amor recebido era tão grande que doía só lembrar.

A saudade da avó a fez chorar…

De repente ela escuta o sinal do final do recreio, naquela escola…

Hora de retornar à sala de aula, vida real!

E era o dia de pagamento, tinha prometido para as filhas, ensinar a fazer aquele doce de tacho da sua avó. Precisava comprar as laranjas, colher de pau e um caldeirão depois da aula, na volta para casa.

Aquela noite, seria de histórias de suspense com doces lembranças…

Rodada 105 Invertida

Conto: Bianca Bertino Pereira
Imagem: Maria Matina

Deixe um comentário