Banho de mar com pitangas

Os meninos vinham correndo e davam saltos ornamentais na grande pedra que servia de trampolim. Mergulhavam na água salgada gritando e com estardalhaço. As meninas vinham atrás e pulavam no mar com certo receio pois não estavam acostumadas às estrepolias da fazenda. Tinham medo, principalmente, de cortar os pés nas ostras e passar pelos curativos feitos com uma escovinha que retirava todas as impurezas de dentro dos cortes. A dor era absurda.

Todos, meninos e meninas, nadavam com roupas de brincar, shorts e camisetas e depois se secavam ao sol deitados na grande pedra. Ao lado havia uma pitangueira sempre carregada de frutinhas vermelhas que caíam no mar. Uma das brincadeiras era comer as pitangas salgadas. Tinham gosto de primeiro beijo. As ondas vinham e todos precisavam se segurar nos galhos da árvore para não se chocarem contra a pedra. Uma aventura. Nessas idas e vindas das ondas, acontecia, por vezes, um roçar de corpos, de lábios, um encontro de rostos, mãos aqui e acolá. E, como não havia como voltar pelo caminho de ida, era necessário contornar a pedra nadando, brigando com as ondas para chegar à prainha rochosa para, então, levar uma bronca das mães por terem se exposto a tanto perigo. Sem saberem que o perigo era outro. Um perigo com gosto de fruta salgada, um gosto que todos levariam pela vida como o perigo mais gostoso a que se expuseram.

Rodada 105 Invertida

Conto: Maria Emilia Algebaile
Fotografia: Rachel Jaccoud Amaro

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