Cheguei correndo. Enfiei o dedo na campainha com força e não o tirei até que alguém atendesse a porta.
Ela colocou o telefone apoiado na mesinha do hall – naquele tempo não havia celular – e impacientemente veio atender a porta.
– Não pode esperar! Eu estava no telefone.
Envergonhei-me.
Era grande ansiedade por este encontro às quartas-feiras. Naquela casa me sentia tranquila. Ali era meu refúgio. Sensação rara para alguém tão inquieto.
O ambiente era tão acolhedor quanto um abraço. A energia era densa,destas que fazem pesar a pálpebra te deixando em completa letargia. Odores acentuados – talvez por ausência de ar condicionado. Engraçado, lembrança não tem cheiro, mas cheiro te traz lembrança.
Terminado os afazeres veio ter comigo.
Revelou-me sentir que estava perto do fim, mas que ainda tinha muita coisa que gostaria de realizar. Eu, jovem na época não compreendi o recado.
Confidenciou-me que não gostava de parecer feia seja qual fosse a situação, fazendo-me prometer que no dia em que viesse a falecer eu a maquiaria para que não fosse enterrada malfeita.
Aquiesci sem ter ideia, ainda que vaga, da proporção de tal pedido. Porém, mal conseguia imaginar como uma mulher alta de feições delicadas, pele alva e olhos verdes poderia parecer feia para os padrões da época.
Dias depois tombou em casa e foi internada.
Devido à complicações suponho, precisou ter a perna direita amputada.
Não se esforçou para sobreviver.
No leito do hospital pude antever o que ela já tinha previsto.
Faleceu. Tive que cumprir com o prometido.
Na minha semana não existem mais quartas-feiras.
Memórias do vencido.
Rodada 105 Invertida
Crônica: Cristina Fürst
Fotografia: Daiany de Souza