Na outra margem éramos sorriso. O sol cingia a terra de fertilidade e a terra rendida em graças nos abraçava- ora a chuva acontecia e tomávamos banho descalços dispostos a plantar cheiros. Foi-se o tempo dos silêncios interrompidos pelo gorjeio dos rouxinóis e o trafegar pela rota do sol. Lembremos do grande curso. Do leito do rio de flores do campo.
Por aqui estamos ressequidos e deslembrados. A casa está esvaziada de corredores animados de falas, os zombeteiros clarões dos sotaques dos filhos da terra. Nós éramos viver: um engolia o que o outro dizia, ríamos de rir o riso do outro e do outro nos abastecíamos. Éramos criança e não tínhamos ideia, certeza que não tínhamos, do jeito fantasmagórico das flores e da abundância das cores. Acho que a chave do portal possa estar na memória de uma tabica roliça e macia pronta para destilar mel e lambuzar o dorso dos cavalos castanhos. Lembro-me que trotávamos e a vida ia passando como um fio de fibras torcidas de linho. A casa avistada continua por lá e apesar desse desabrigar, a sinfônica passarês nos nina, protege e anuncia a próxima invernada. Avoemos, sejamos fantasmas e vivemos e plantemos e nos bendizemos filhos da terra…
Rodada 105 Invertida
Conto: Adriana Vieira Lomar
Fotografia: Ângela Márcia