Fazia calor na ponta do Humaitá. Talvez fossem cinco ou seis garotos – o número oscilava ao longo daquelas horas. Do ponto mais alto do atracadouro mergulhavam, um de cada vez, em busca do salto mais acrobático, da imersão mais plástica, do movimento que fizesse paralisar o tempo.
Por instantes sumiam nas águas para, logo depois, reaparecerem, satisfeitos, aguardando até que o último se lançasse. Quando todos, enfim, estavam no mar, reuniam-se e punham-se a nadar até a margem, percorriam todo o cais numa carreira só, desviando-se dos visitantes, escalavam a estrutura de ferro e recomeçavam a brincadeira, repetindo-a inúmeras vezes, como convém às crianças.
Levemente invejosos, turistas assistiam ao balé sincronizado daqueles meninos que, pode-se dizer, eram os únicos a corresponder ao que a tarde abafada de verão sugeria. Em torno, vigiando a fortificação militar vizinha, guardinhas mantinham sentinela, mas não exerciam qualquer autoridade. Naquela tarde não havia quem não soubesse, decerto, que aqueles cinco ou seis garotos eram soberanos.
Rodada 105 Invertida
Crônica: Robson Aguiar
Fotografia: Walter Vinagre